Itália declara a “guerra do leite” contra a UE

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Publicado terça-feira, 13 de maio de 2003 as 23:17, por: cdb

Como sabem muito bem os países do Mercosul, quando se fala de subsídios ou ajudas para a agricultura na União Européia (UE) se armam umas brigas ferozes: esta conduta, para a UE é quase uma norma geral, ficou confirmada hoje mais uma vez com o tema das multas que os produtores italianos de leite deverão pagar para Bruxelas por ter superado suas cotas de produção entre o 1995 e o 2001.

Além de ser complicada, a questão é muito peculiar e está se arrastando há doze anos.

O conflito destes dias tem surgido porque o governo de Silvio Berlusconi propôs que a UE aceite conceder um prazo de 30 anos à Itália para pagar Bruxelas – sem juros – de quase 650 milhões de euros que 23.400 produtores lácteos italianos deveriam abonar por ter superado suas cotas produtivas.

A questão é muito delicada para a Itália, sobretudo no norte onde trabalham grande parte dos produtores lácteos da península, cuja defesa de interesses é uma autêntica bandeira de diferentes partidos, em primeiro lugar da Liga Norte de Umberto Bossi.

Roma defende em outras palavras com ardor sua proposta de pagar em 30 anos e sem juros o que deve, alegando que outras soluções poderiam inclusive criar fortíssimas tensões sociais em seu país.

Tema quente

Existe em outras palavras o risco que em Bruxelas se chegue a um acordo que não agrada aos produtores italianos, que então não duvidariam em organizar protestos e conduzir seus tratores e inclusive suas vacas, pelas ruas das cidades da Itália, com já aconteceu mais de uma vez anos atrás.

Frente às resistências italianas, não são poucos os analistas que lembram que na realidade o tema da agricultura é um tema quente não apenas para a Itália, mas sim em muitos dos outros países onde o campo tem uma importância econômica chave, como a Grécia, a Espanha ou Portugal.

O caso é que de uma outra forma a proposta italiana não consegue prosperar: a Holanda e a Suécia a idéia não agrada, enquanto que também a Grã-Bretanha e a Alemanha se opõem, porém de forma menos explicita.

Contudo, o país que disse “não” de forma mais clara tem sido a Dinamarca, cujo Parlamento ordenou ao ministro dinamarquês das Finanças, Thor Pedersen, de rechaçar a idéia do governo de Berlusconi.

Este foi precisamente o que Pedersen fez hoje durante a tradicional reunião dos ministros de Finanças dos 15, que provavelmente deixará o tema onde se encontra, ou seja, em alto mar.

Com a intenção de aprovar a sua proposta, a Itália decidiu vincular o problema das multas do leite a outra questão central para a UE, ou seja, um grande acordo entre os 15 sobre a questão das taxas a poupança.

O que a Itália diz é “ou me aprovam a do leite, ou bloqueio a solução sobre a poupança”. Assim simples.