Isolamento dos EUA cresce após relatório dos inspetores da ONU

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 8 de março de 2003 as 08:35, por: cdb

Menos do presidente George W. Bush ter afirmado que não necessita de permissão das Nações Unidas para iniciar uma guerra para desarmar o Iraque e mudar o governo do país, as novas informações apresentadas por Hans Blix e Mohamed El-Baredei ao Conselho de Segurança sobre os progressos realizados pelos inspetores de armas da ONU deram novos argumentos para os críticos da estratégia belicista dos Estados Unidos, dentro e fora do país, e aumentaram o isolamento da administração americana.

Do ponto de vista dos objetivos de Washington, os relatórios dos inspetores de armas de ONU foram um desastre. El-Baredei praticamente descartou que o Iraque possua armas nucleares ou capacidade industrial para produzi-las, desmentindo alegações e suspeitas levantadas por Washington. Blix pediu maior cooperação de Bagdá, mas também reportou uma mudança positiva de atitude do governo iraquiano e fez uma reclamação velada aos EUA, pelo não fornecimento aos inspetores internacionais de informações que o governo Bush diz possuir sobre a existência de armas químicas e biológicas no País.

O constrangimento diplomático não deverá, contudo, desviar Washington do caminho que Bush traçou e que pode levar o país à guerra em menos de duas semanas. O dia 17 de março – proposto pela Inglaterra como ultimato para Saddam Hussein cumprir de uma vez as ordens de desarmamento da ONU – emergiu como a data de referência para o início do ataque.

Na verdade, o conflito pode começar já na próxima semana, tão logo o Conselho de Segurança vote o projeto de resolução apresentado pelos EUA, Inglaterra e Espanha, que declara o Iraque em violação da resolução 1441, de novembro passado, e, implicitamente, autoriza a ação militar. Bush disse na quinta-feira que insistirá na votação.

Fontes diplomáticas americanas informaram nesta sexta-feira que ela deve ocorrer na terça-feira.

Sabe-se, de antemão, que a resolução não será adotada. Se as chances de os EUA e seus aliados conseguirem o apoio mínimo necessário de nove dos quinze membros do Conselho de Segurança para aprová-la já não eram claras, elas se tornaram ainda mais incertas diante da polarização de posições provocada pelos relatórios apresentados por Blix e El-Baredei.

Chile, México, Camarões, Guiné e Angola manifestaram-se em favor de mais tempo para as inspeções, adotando posições mais próximas das defendidas pela França, Rússia, China e Alemanha. Mesmo que os EUA, a Inglaterra e a Espanha venham a conseguir os nove votos, o ministro das Relações Exteriores da França, Dominique de Villepin, deixou cristalino nesta sexta-feira que seu governo vetará qualquer resolução “que estabeleça um ultimato ou um cronograma para a guerra”. Rússia e China indicaram que poderão somar-se ao veto francês.

Negada a autorização que Washington busca para legitimar o ataque maciço que planejou contra o Iraque, Bush declarará que o Conselho de Segurança condenou-se à irrelevância ao não exigir o cumprimento pleno e imediato da ordem de desarmamento do Iraque que aprovou por unanimidade, no dia 5 novembro. O secretário de imprensa da Casa Branca, Ari Fleischer, antecipou nesta sexta-feira o argumento dizendo que a ausência de aval da ONU não impediu a intervenção de uma coalizão internacional no Kosovo, em 1999. Ele omitiu, no entanto, que a intervenção no Kosovo foi feita pela Aliança do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, que está irremediavelmente rachada na confrontação com o Iraque.

Fontes oficiais americanas admitiram que a emenda ao projeto de resolução, estabelecendo o dia 17 como prazo fatal para Saddam Hussein submeter-se à ordem na ONU, tem muito de teatro político. Ela foi apresentada para permitir ao primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, que enfrenta crescente oposição em casa por causa de seu apoio incondicional a Bush, dizer a seus eleitores que fez o que pôde no terreno diplomático para evitar a guerra. Na quinta-feira, Blair, que insistiu com Bush sobre a importância política da aprovação