Irmão Antônio: 80 anos e muitas lições de vida e de fé

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Publicado terça-feira, 29 de maio de 2007 as 16:36, por: cdb

Eu era entregador de jornal e às cinco horas da manhã, com uma bicicleta, começava meu itinerário por ruas dos bairros Mathias Velho e Santo Operário, em Canoas. O entregador de jornal tem que saber de cor o nome de todas as ruas. E eu sabia e ainda me lembro bem para nunca esquecer. Não apenas decorei o nome das ruas para saber por onde andar entregando jornal, mas pelo encantamento com o significado de cada nome. A Rua Sino da União, por exemplo, lembra que na ocupação da área, então chamada de “Prado”, depois Vila União dos Operários, quando havia qualquer ameaça às famílias, alguém tocava o sino e o povo se juntava, se reunia para que nada de mal acontecesse. A Rua Libertação nos lembra a história do povo de Deus na Bíblia e a história de muitas famílias em Canoas que sonhavam com a sua libertação, com uma vida melhor. A Rua dos Romeiros lembra que ali passou a Bendita Romaria da Terra. É a rua da fé, onde bem na esquina se levantou uma igreja que foi a base da luta e organização do povo. A Rua 18 de Novembro lembra o dia da vitória, quando as famílias conquistaram a posse da terra. Esta rua também ganhou uma igreja, uma comunidade de fé que mantém vivos a história, o compromisso e o sonho de um povo.
Seguindo meu itinerário de entregador de jornal, passava também pela Rua Negrinho Santo que nos lembra o Negrinho do Pastoreio, a Vila Santo Operário que faz uma homenagem ao operário mártir, Santo Dias da Silva, e a Rua São Sepé que lembra o índio Sepé Tiarajú. E bem mais adiante, a Vila Natal é uma marca histórica da organização dos pobres que, as vésperas do Natal do Senhor, se sentiam semelhantes ao pobre Menino Jesus e, animados pela mesma fé, vão e ocupam uma área de terra e ali fazem suas moradas, como fez a Sagrada Família na gruta de Belém.

Como na palma da mão, leio nestas ruas e vilas a minha história de entregador de jornal e a história de um povo que vinha de muitos povos; famílias, como a minha, que a sorte fez migrar em busca de um novo amanhã. E nas entrelinhas do que leio, vejo a história, a vida de um irmão que Deus nos deu. Este tão querido Irmão Antonio Cechim. Ao passar entregando jornal, cada rua me apresentava o Irmão Antonio, cada rua me contava sua história, sua trajetória de luta e muita fé. Ele havia passado por ali, guiado pela mão de Deus e conduzindo o povo no caminho da libertação. Quando tudo ainda era difícil – o banhado, os alagamentos, os jagunços e tantas outras dificuldades – por ali passaram os pés de um peregrino, irmão dos pobres, amigo de Deus. As ruas contam a história de lutas e conquistas de um povo e esta história revela o coração, a alma, a vida simples, mas heróica e corajosa de Irmão Antônio Cechim. O nosso querido Irmão Antônio que acaba de completar 80 anos de vida.

Irmão Antonio apostou na Teologia da Libertação, nas CEB’s, na Catequese Renovada. Edificou sua vida lutando pela dignidade humana e, com a força da fé, testemunhando o Evangelho de Jesus Cristo na opção pelos pobres. Foi perseguido, preso e torturado pela ditadura militar, mas nem o castigo, a violência e a crueldade que sofreu lhe fizeram abandonar seus ideais. Ele superou tudo e até hoje continua sua missão a serviço dos mais pobres. Ajudou a criar as Comunidades Eclesiais de Base, a Pastoral da Terra e o MST no Rio Grande do Sul. E depois se empenhou com a organização dos catadores em Canoas e Porto Alegre, criou a Pastoral da Ecologia e protagonizou o reavivamento da imagem de São Sepé Tiarajú. Nos últimos anos, vem motivando a Igreja no Rio Grande do Sul a assumir a bandeira da Ecologia. Irmão Antonio, nos seus 80 anos de vida, vem lutando em defesa das águas, dos pobres e do meio ambiente. E vêm nos dando muitas lições de vida e de fé.

Costumamos dizer que Irmão Antonio é o pai das CEB’s, mas as CEB’s são a sua mãe, os seus irmãos, a sua vida, a sua história. E quando glorificamos a Deus pela vida deste querido irmão, estamos louvando a Deus pelas Comunidades Eclesiais de Base e a