Investidores recuam, mesmo diante da ajuda bilionária da Europa à Grécia

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Publicado segunda-feira, 3 de maio de 2010 as 09:16, por: cdb

O Banco Central Europeu (BCE) resolveu aceitar todos os bônus do governo grego como garantia por empréstimos, mesmo se as avaliações de crédito dos títulos continuarem caindo. O movimento ocorre após a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciarem, na véspera, um pacote de 110 bilhões de euros para a Grécia, condicionado a cortes de gastos e aumentos de impostos. O movimento também assegura que os bancos gregos continuarão tendo acesso a liquidez, mesmo se eles não obtiverem recursos nos mercados.

A reação dos investidores, no entanto, foi de desconfiança com a eficácia da solução adotada para a economia grega. Embora o resgate de 110 bilhões de euros (US$ 146 bilhões) comece a chegar à Grécia nesta semana, seguem os temores sobre a viabilidade do maior pacote da história e a fuga de capitais abateu os mesmos mercados que a ajuda deveria acalmar.

O euro caiu nesta segunda-feira apesar do anúncio do pacote feito no final de semana, por temores sobre se a Grécia conseguirá implementar o plano de austeridade que prometeu em troca da ajuda. Os bônus dos governos da zona do euro abriram em baixa e as ações europeias caíam 0,5% pela manhã, um dia após os ministros das Finanças da região aprovarem o pacote de emergência. Em troca, Atenas comprometeu-se em realizar economias radicais, o que levou milhares de pessoas às ruas para protestar.

– Há pouca convicção de que essa seja uma solução rápida. A sustentabilidade de longo prazo desse nível de austeridade deve ser aberta a questionamento – disse Tony Morriss, estrategista sênior de câmbio do ANZ Bank, em Sydney.

Além da queda nas ações das principais companhias europeias, o cenário político na Grécia era extremamente pessimista.

– Não parece que o mercado está convencido ainda. É isso o que o euro está dizendo. O acordo ainda tem que passar pelos parlamentares e isso vai ser difícil – afirmou um operador europeu de câmbio.

Ações pressionadas

A observação do operador europeu foi confirmada pelo movimento de queda nas bolsas da Ásia, nesta segunda-feira, pressionadas por receios de que o pacote de ajuda à Grécia poderá enfrentar duros obstáculos políticos. Os negócios também foram minados por novas medidas tomadas pela China para resfriar sua economia. O pacote à Grécia, o maior já organizado para ajudar um país, aliviou alguns temores de curto prazo sobre possibilidade de calote, mas o plano ainda precisa de aprovações parlamentares e deixa aberta a dúvida sobre qual será o próximo país europeu fragilizado a enfrentar problemas.

Os investidores estão profundamente céticos de que Atenas será capaz de cumprir suas últimas promessas de cortes adicionais nos gastos e de aumento de impostos para reduzir o déficit orçamentário para 3% de sua economia até 2014, ante nível de mais de 13% em 2009. Analistas financeiros também se mostram céticos quanto à eficácia das políticas dos governos na transformação do cenário econômico, em franca depressão na Grécia e em outros países da periferia do continente, para um quadro de crescimento econômico e de resultados positivos para as empresas.

Às 8h15 (horário de Brasília), o índice que reúne as principais bolsas da região Ásia-Pacífico exibia queda de 1,21%, a 422 pontos. Bolsas na Inglaterra, China, Japão e Tailândia não operam nesta segunda-feira em virtude de feriado. Cortar exposição a risco foi a ordem do dia na Ásia. A bolsa de Seul caiu 1,17% e a de Hong Kong teve perda de 1,41%.

O Industrial and Commercial Bank of China, maior banco do mundo em valor de mercado, viu suas ações recuarem 1,6% depois que a China elevou o depósito compulsório no domingo. A bolsa de Taiwanteve desvalorização de 0,65%, Cingapura registrou perda de 1% e Sydney apurou queda de 0,46%.

Em alta

Apesar das más notícias no Peloponeso, o setor manufatureiro da zona do euro continuou a se fortalecer em abril, mais do que o estimado anteriormente, com a produção industrial atingindo o maior nível em quase dez anos, conduzida pelo desempenho recorde da Alemanha, mostrou uma pesquisa nesta segunda-feira. O índice de atividade industrial Markit subiu para 57,6 em abril, de 56,6 em março, superando a divulgação preliminar de 57,5. Os dados foram coletados pelo Markit entre 12 e 23 de abril.

A leitura foi a mais alta desde junho de 2006 e marca o sétimo mês consecutivo acima de 50, nível que separa crescimento de contração. O índice de produção subiu para 61,2, de 59,8 em março, abaixo da leitura preliminar do mês de 61,3, mas a maior desde junho de 2000. Pela primeira vez em 18 meses, as manufatureiras conseguiram ver aumento nos preços, com o índice de preços de produção subindo para 54,4, de 49,9 em março – acima de 50 pela primeira vez desde outubro de 2008.

O índice de emprego no setor manufatureiro continuou abaixo de 50 pelo 23º mês consecutivo, mas ficou bem perto da estabilização.