Intervencionismo dos EUA mostrava há 29 anos sua força no Chile

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 18 de setembro de 2002 as 00:23, por: cdb

Esta data mudou o curso da história internacional nas últimas três décadas. Faz um ano, um grupo de piratas aéreos espatifou-se contra as Torres Gêmeas e contra o Pentágono. Muito provavelmente, os fundamentalistas islâmicos que perpetuaram essa matança não se aperceberam que, há exatamente 29 anos, a principal sede de outro governo – desta vez, latino-americano – havia sofrido um ataque aéreo.
Em 1973 foi destruído o palácio do governo chileno, o La Moneda. A ação, desta vez, não foi realizada por pilotos estrangeiros, mas pela própria Força Aérea Chilena, instruída pela CIA, a agência de inteligência da mesma superpotência que sofreria o mega-atentado de 2001.

O 11 de setembro de 1973, assim como o de 2001, alterou a ordem mundial: há 29 anos colocava-se um ponto final à primeira experiência de um governo constitucional formado por partidos pró-soviéticos no Ocidente. E, apesar de a Unidade Popular – coalizão vitoriosa dos partidos da esquerda chilena – encaixar-se perfeitamente no sistema de democracias representativas patrocinado por Washington, a administração americana considerou o fato intolerável.

Antes do golpe de Augusto Pinochet a esquerda havia crescido eleitoralmente e predominava um clima de tensão social. O Secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, sustentava publicamente que não se podia aceitar um povo tornar-se comunista “por ignorância”.

O golpe militar em Santiago serviu para demonstrar que o principal poder ocidental não toleraria governos contestadores ainda que esses tivessem sido eleitos pela via do sufrágio universal. Além disso, o fato consolidou e ampliou o raio das ditaduras anticomunistas em todo o Cone Sul.

O novo regime instaurado no 11 de setembro de 1973 seria o mesmo que inauguraria o atual modelo econômico predominante durante toda esta era da chamada globalização. A receita de Pinochet consistia em renunciar ao velho sistema de economia keynesiana, que protegia a indústria e o mercado internos, promovia o desenvolvimento por meio da substituição das importações e elevava o consumo mediante a elevação da renda. Para a Escola de Chicago – nome que remete à universidade-reduto das idéias ultraliberais – era fundamental que ali se implantasse uma economia aberta às importações e ao livre fluxo de capital estrangeiro.

Pouco importava que isso levasse à destruição de muitas indústrias que produziam para o mercado interno, que provocasse aumento do desemprego, redução real de salários e deterioração de condições de trabalho. Com o tempo, sustentavam os economistas liberais, isso permitiria um processo de acumulação de capital. Orientando-se nessa nova direção de privilégio à exportação e à estabilização da moeda, a economia chilena começou a dar mostras de uma pujança econômica que passou a ser modelo para outras nações do Hemisfério Sul.

Para os críticos do neoliberalismo, na verdade, tratava-se de deixar faminto o povo para poder exportar ao máximo. O monetarismo em voga via nesta receita a única possibilidade de os países subdesenvolvidos poderem competir no mercado internacional e se desenvolverem.

O golpe de Pinochet foi um dos momentos de maior tensão entre as duas superpotências – EUA e a então URSS -, justamente quando ambas pareciam ter chegado à década de setenta em situação de equilíbrio.

Ao final dos anos setenta, a administração norte-americana de Carter promoveu uma mudança no sentido de patrocinar os direitos humanos como estratégia para minar o bloco soviético e para propiciar base social a novos governos que viriam a aplicar reajustes econômicos na América Latina.

O modelo militar imposto no Chile em 11 de setembro de 1973 foi sendo deixado de lado para patrocinar o sistema neoliberal que ele mesmo havia ajudado a introduzir. A maior vitória do golpe foi que, com o tempo, os próprios países do Pacto de Varsóvia acabariam por renunciar ao sistema de economia planificada e aos regimes de partido único – comunista -, para abraçar a economia de