Integração versus anexação

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Publicado quarta-feira, 19 de novembro de 2003 as 19:13, por: cdb

O 4º Foro Ibero-América, que reuniu empresários, intelectuais, acadêmicos e representantes de países da América Latina, de Portugal e da Espanha, na cidade brasileira de Campos do Jordão (SP) foi a ocasião para que se tomasse conhecimento de algumas das preocupações do governo brasileiro em relação à América Latina. Foi nesse encontro que o ministro José Dirceu (Casa Civil) defendeu que a América do Sul e, posteriormente, a América Latina, deveriam seguir o exemplo da União Européia e adotar Parlamento e moeda comum. Na sua opinião, Brasil e Argentina têm papel fundamental nessa iniciativa e poderiam liderar as discussões sobre os temas.

De acordo com Dirceu, é preciso pensar “numa América do Sul para além do Mercosul e numa América Latina para além da América do Sul. Nós temos de pensar para além da integração econômica. É integração social, cultural e política. Temos de pensar num Parlamento, em políticas macroeconômicas, pensar em uma moeda única. Temos de pensar grande, como a União Européia”.

As iniciativas do governo Lula, desde a posse, têm privilegiado a América do Sul – com vistas ao fortalecimento do Mercosul – e indo além desta para o restante da América Latina. A integração da América do Sul é o mais urgente, do ponto de vista estratégico, pois qualquer perda de tempo favorece os planos americanos para a região, que é justamente a de impedir a formação desse pólo alternativo no continente. Para conseguir isso é preciso agir com maior tirocínio político, contornando tudo o que possa dificultar essa aproximação entre os países da área.

Ora, alguns analistas têm chamado a atenção para o fato de que a ênfase posta pelo Brasil na conquista de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas pode ser um obstáculo para a evolução mais rápida do processo de integração regional, com risco até de inviabilizá-lo. A Argentina, que seria o principal parceiro do Brasil na estratégia de um pólo alternativo de poder no continente (o ministro da Casa Civil defendeu, inclusive, uma integração militar) demonstra uma resistência clara à pretensão brasileira na ONU. Sendo assim, é preciso que o Brasil analise com cuidado o que é mais importante para a consecução do objetivo que se propôs inicialmente: formar um bloco tal como o defendido pelo ministro José Dirceu, ou jogar suas fichas na conquista de uma posição que supostamente lhe daria mais visibilidade e influência num cenário mais amplo?

A boa lógica diz que uma posição como membro permanente do Conselho de Segurança seria de pouca valia se não estivesse fundamentado numa base real de poder, como a que poderia advir da constituição de uma espécie de União Sul-Americana.

Outra contradição não menos impressionante é a vacilação demonstrada ultimamente pela diplomacia brasileira em relação às negociações da Alca. Há demonstrações perceptíveis de recuo na posição brasileira frente à pressão de Washington. Isso é sumamente preocupante porque ceder às pretensões estadunidenses significa – por mais que se tente minimizar a realidade – aceitar ser anexado pelo império americano. A situação pouco se diferenciará daquela experimentada pelos países que aderiram ao Nafta. Basta citar o exemplo do México: alguém duvida que um futuro governante mexicano, mesmo respaldado pelo apoio expressivo de seus cidadãos não poderá mexer em pontos fundamentais do acordo, daqui para frente, ainda que amargando prejuízos? Os EUA sempre considerarão que seus interesses vêm em primeiro lugar, como é natural. É esse o destino que o Brasil quer para si?

Por conta disso, já era para o alarme ter soado com mais força dentro do Partido dos Trabalhadores, dos movimentos sociais e da universidade para uma mobilização ampla destinada a barrar o processo de recuo do governo brasileiro nesse ponto. Aliás, o compromisso incondicional do PT com a coalizão que está no poder, presuntivamente, deveria estar cingido à fase emergencial de viabil