Inserção do Brasil no cenário externo amplia necessidade de controle em nível doméstico

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Publicado sexta-feira, 23 de abril de 2010 as 10:37, por: cdb

A agenda do ministro da Fazenda, Guido Mantega, nesta sexta-feira, intensificou-se com a participação do Brasil na discussão das relações econômicas do país com outros países. A primeira, pela manhã, aconteceu com ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do Bric (grupo que reúne o Brasil, a Rússia, a Índia e a China). A seguinte, ainda nesta manhã, reuniu ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do G20 (grupo que reúne os principais países ricos e em desenvolvimento). No período da tarde, Mantega confirmou seu encontro com o ministro de Finanças da China, Xie Xuren e, à noite, sua presença no jantar com representantes do FMI e ministros do G20.

Em âmbito doméstico, Mantega voltou a minimizar, na noite passada, as preocupações dos economistas sobre o possível superaquecimento da economia brasileira, dizendo que o Banco Central (BC) e o governo vão tomar as ações necessárias caso os riscos aumentem. Antes do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) na próxima semana, em que o BC deve elevar a Selic pela primeira vez em quase dois anos, Mantega afirmou que a economia está melhorando, mas ainda na horizontal.

Os formuladores de política monetária vão atingir as metas de inflação em 2010, disse ele, prevendo alta nos preços entre 4,5% e 5% neste ano. Isso se equipara à meta de inflação de 4,5%, com tolerância de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

– A economia do Brasil não está superaquecida. Se de alguma forma isso acontecer, vamos tomar medidas. Ainda não identifiquei inflação de demanda – afirmou Mantega a jornalistas ao chegar a encontros entre ministros de Finanças em Washington.

Os últimos relatórios do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgados nesta semana apontaram riscos de superaquecimento na economia brasileira, que tem se recuperado rapidamente da crise amparada por isenções fiscais e pelo aumento de fluxos de investimento. Os analistas esperam firmemente que o Copom eleve a taxa de juros na reunião de 28 de abril em entre 0,5 e 0,75 ponto percentual.

Questão cambial

Não há preocupações de que o aumento no juro básico brasileiro, numa época em que os custos de financiamento em economias avançadas ainda estão nas mínimas históricas, possa atrair capital especulativo e piorar os problemas decorrentes de um real apreciado. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, alertou mais cedo que grandes fluxos de capital para economias emergentes elevam o risco da formação de bolhas de ativos.

O Brasil tentou no ano passado frear a valorização do real ao impor uma taxa sobre entradas de capital. Mais recentemente, preocupações com o fortalecimento da moeda levaram o Banco Central a realizar leilões de compra de dólar no mercado à vista para enxugar liquidez do mercado. Mantega disse que não há necessidade de controles de capital no momento e afirmou que não existe risco da formação de bolhas de ativos. Mas o ministro reiterou o receio do país com a taxa de câmbio.

– Não é bom que o real de fortaleça. Isso é válido não somente em relação à moeda chinesa, mas em relação ao dólar – afirmou.

Uma das quatro economias que formam o Bric, o Brasil tem elevado o tom sobre a questão cambial da China, com o presidente do BC, Henrique Meirelles, dizendo que um iuan mais forte é “essencial” para uma economia mundial equilibrada. Mantega disse que não é contra a taxação sobre bancos discutida nos encontros desta semana, mas ponderou que isso não se aplica ao Brasil, cujo sistema bancário enfrentou a crise financeira global relativamente bem.

O ministro afirmou ser a favor da taxação sobre tomadores de risco.

– Uma taxa sobre risco poderia ser aplicada no Brasil – disse, citando instituições com alto nível de alavancagem e que assumem muito risco.