Inquilinos marca mudança de tom no cinema de Bianchi

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Publicado quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 as 12:21, por: cdb

Ao longo de quase 40 anos de carreira, o diretor paranaense, radicado em São Paulo, Sérgio Bianchi ficou conhecido por filmes tão explosivos quanto sua notória personalidade. Por isso, Os Inquilinos – Os Incomodados que se Mude“, que estreia em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, é uma grata surpresa na filmografia do cineasta.

No centro da trama está Valter (Marat Descartes, de Lula – O Filho do Brasil), pai de família, morador da periferia que trabalha durante um dia num mercado de frutas e estuda à noite. Depois de apresentar essa rotina pacata desse cidadão comum, o filme introduz um novo elemento: um trio de vizinhos arruaceiros que se mudam para a casa ao lado do protagonista.

O grupo mora no mesmo quintal de Dimas (Umberto Magnani, de Quanto Vale ou é por Quilo?“, um homem de idade e poucas amizades que encontra em Valter o único amigo e confidente para reclamar do grupo de novos vizinhos — que fazem festas regadas a bebidas, com música em alto volume e muitas mulheres até a madrugada.

Quando chega em casa à noite, é Iara (Ana Carbatti, de Quanto Vale ou é por Quilo?), sua mulher, quem atualiza o marido com as novidades dos vizinhos, que dormem boa parte do dia depois das noitadas. Aos poucos, uma paranoia toma conta da cabeça e da vida da família de Valter- – quem seriam os três rapazes? De onde vêm? São criminosos? Que risco representam?

O roteiro de Os Inquilinos foi escrito por Bianchi, cuja carreira se iniciou com o curta Omnibus (1972) e também inclui Quanto Vale ou é por Quilo? (2005) e Cronicamente Inviável (2000), e Beatriz Bracher (Cronicamente inviável) a partir de um conto de Vagner Geovani Ferrer, aluno de um curso do projeto EJA (Educação para Povens e Adultos).

Este roteiro, assim como a atriz coadjuvante Cássia Kiss, foram premiados no Festival do Rio do ano passado. A narrativa, bastante contida sem panfletagem ou verborragia, se constroi em cima da tensão de uma catástrofe que possa acontecer a qualquer momento — seja ela um desentendimento entre Valter e os vizinhos, uma morte, ou mesmo, nada.

A vida de Valter na escola noturna abre espaço para questionamentos sócio-culturais dos personagens, especialmente nas aulas ministradas pela professora interpretada por Cássia Kiss (“A Festa de Menina Morta”). Junto com seus alunos, ela discute a voz da periferia por meio de textos, como poesias.

A contenção da trama ganha respaldo numa interpretação inspirada de Descartes, conhecido ator de teatro paulistano que estreia como protagonista no cinema. Valter é um personagem passivo, que nunca age, e raramente reage. Ainda assim, não temos pena, nem raiva dele, porque o ator o transforma num ser humano qualquer, levando sua vida pacata, ameaçada por elementos estranhos ao seu mundo.

O que Os inquilinos parece tentar dizer é que o poder institucionalizado é incapaz de responder às nossas necessidades. Presente em toda a obra de Bianchi (que acaba de ser lançada em DVD), esta ideia ganha força aqui, pela forma como é abordada: cheia de sutilezas e tensão.