Indefinição do PT azeda lua-de-mel e dólar bate R$ 3,80

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Publicado quinta-feira, 5 de dezembro de 2002 as 23:55, por: cdb

O dólar superou a cotação de R$ 3,80 pela primeira vez em cinco semanas depois que o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, declarou que só deve anunciar seu gabinete na próxima semana.

Após ser vendida a R$ 3,81, o Banco Central interveio no mercado vendendo dólares e a cotação caiu um pouco. A moeda fechou a R$ 3,765 para venda e R$ 3,755 para compra, em alta de 1,20%.Enquanto isso, o risco Brasil sobe 4,68% para 1.677 pontos.

A notícia sobre o gabinete fez o mercado passar de “cauteloso” a comprador de dólares. De segunda-feira até a manhã de hoje, a maior parte dos investidores estava parada, e a pressão compradora vinha apenas de empresas endividadas que precisam de dólares para pagar contas fora do país.

Agora, esse situação mudou, as instituições financeiras retomaram a procura por “hedge” (proteção cambial), o que não acontecia havia mais de um mês. Ou seja: os bancos voltaram a se sentir inseguros e compram dólares para se protegerem de perdas em caso de eventuais solavancos financeiros.

A insegurança vem do mesmo lugar que se tornou a fonte de tranquilidade do mercado no último mês: o PT. Sem o anúncio do gabinete de Lula e, principalmente, da equipe econômica, o mercado foi tomado pela boataria e a especulação.

Agora, em vez de levantar nomes que poderiam suceder Armínio Fraga na presidência do Banco Central, o mercado levanta nomes que já teriam recusado o convite do PT para presidir a entidade.

Entre esses nomes, para o mercado, estaria o do próprio Fraga. A percepção do mercado só piorou depois que Lula e Fraga se reuniram por mais de uma hora no fim da manhã de hoje, supostamente para discutir a transição no BC, e o presidente eleito continuou negando a permanência do economista à frente da entidade monetária.

A impressão deixada no mercado, depois de sucessivas declarações de que Fraga passaria o bastão, foi de que o PT está sem cartas na manga e já teria tentado todos os nomes de sua lista.

Embora no campo ainda dos rumores e da boataria, com a demora do anúncio, essa hipótese ganha fora e começa a preocupar o mercado, detonando o movimento de compra de “hedge” e invertendo a tendência do dólar, que até então era de baixa, com altas pontuais.

O jornalista Ricardo Kotscho, assessor de Lula, disse nesta tarde que não há data para o anúncio. “Continuamos mantendo os contatos e não temos data para anunciar”, disse Kotscho.

Para assumir o governo, em 1º de janeiro, já com um novo presidente do BC, Lula precisa indicar um nome a tempo de o candidato ser sabatinado pelo Senado, que entra em recesso no dia 15.

O gabinete e a equipe econômica de Lula são vistos como uma radiografia mais precisa de seu governo, após dois meses de discurso alinhado ao mercado que encantou os investidores, mas que ainda precisam se transfigurar em medidas concretas para garantir a calma e o apoio do mercado.