Indefinição argentina preocupa Malan

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 27 de dezembro de 2001 as 19:31, por: cdb

As medidas implementadas pelo presidente provisório da Argentina, Adolfo Rodríguez Saá, ainda não foram totalmente digeridas pelo governo brasileiro. Quase uma semana após o anúncio da suspensão do pagamento da dívida externa e um pacote de medidas para tentar reativar a economia, os rumos do principal parceiro do Mercosul ainda são um ponto de interrogação para o ministro da Fazenda, Pedro Malan.

Cauteloso, ele mede muito bem cada palavra quando o assunto é Argentina. A expressão do rosto, porém, não deixa esconder um misto de preocupação e torcida para que os vizinhos superem logo o período difícil que enfrentam. “Estamos acompanhando com enorme interesse o que está acontecendo lá, mas é absolutamente prematuro algum comentário sobre possíveis desdobramentos porque eles estão em processo de definição do rumo que vão tomar”, resume o ministro.

Na verdade, com um governo provisório recém-empossado, um impasse sobre a condução da política cambial, a criação de uma nova moeda e uma enorme descrença da população após nove pacotes econômicos em dois anos, prever o futuro é uma missão difícil até mesmo para os argentinos.

Como não dá para dissociar totalmente as duas economias, os vizinhos estão na lista de indefinições para 2002 que podem interferir na retomada da atividade no Brasil. Malan não aprova muito afirmações sobre descolamento brasileiro em relação à Argentina. “Não gosto dessa palavra, acho que ela não expressa o fato de que nós vivemos em um mundo interdependente”, diz. “Temos interesse que a Argentina retome o crescimento e encontre um quadro de estabilidade política e econômica o mais rápido possível.”

Na avaliação do ministro, “o que se chama de bolo dos países emergentes é menos bolo do que era no passado”. Ele acredita que, atualmente, a capacidade dos analistas de mercado de diferenciar interna e externamente as realidades de cada país é muito maior do que no passado. Mas, ainda assim, o caminho e a forma como a Argentina irá resolver o seu principal problema – a paridade do peso com o dólar – interessa diretamente aos brasileiros.

Qualquer conversa sobre o futuro do bloco econômico da região, o Mercosul, depende desse desfecho. “Desejamos manter na agenda o Mercosul e a adoção de uma moeda única na região. E esta flutua em relação às demais”, defende Malan. O ministro, porém, não arrisca comentar se o tom populista das medidas anunciadas pelo governo provisório não atrapalharia esse projeto. Defensor ferrenho do equilíbrio fiscal como uma das bases para o crescimento sustentado da economia, Malan prefere voltar a conversa para a situação brasileira e processo sucessório que ocorrerá em 2002.

“Quem investe no Brasil está olhando o que estamos fazendo, em que termos estamos nos organizando, colocando o nosso debate, como estamos pautando a nossa agenda. Sempre fui extremamente cuidadoso para não parecer que eu estou querendo tecer considerações sobre países amigos e a maneira pela qual devem conduzir seus negócios”, desconversa.