Ibama põe “o som da Amazônia” no mercado

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Publicado segunda-feira, 24 de fevereiro de 2003 as 15:55, por: cdb

Nem só de batuques e Carnaval vive a musicalidade brasileira. Novos sons e timbres começam a ser literalmente fabricados em laboratório, em Brasília. Mais precisamente no Laboratório de Produtos Florestais do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (LPF-Ibama), onde, há 8 meses, o físico Mário Rabelo de Souza retomou a pesquisa com madeiras amazônicas para a fabricação de instrumentos musicais.

Hoje, como parte das comemorações de 14o aniversário, o Ibama já lança os três primeiros produtos do LPF, com características físicas testadas por Souza e acústica aprovada pelo músico profissional Pablo Fagundes. São três versões de gaitas, feitas em parceria com a indústria Hering, com as madeiras açoita-cavalo, ipê e louro. Nos próximos dois anos, devem ser anunciadas novas alternativas para construir violões, violas, violinos, violoncelos, guitarras, teclas de piano, flautas, clarinetes e xilofones.

Souza já havia trabalhado com a análise de madeiras amazônicas para instrumentos musicais no antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), desde 1993. As pesquisas foram interrompidas por alguns anos e retomadas em 2002, com o objetivo de dar, ao mercado madeireiro, opções de alto valor agregado para uso de madeiras pouco conhecidas ou para pedaços de madeira médios e pequenos, usualmente descartados nos setores mais tradicionais, como o de móveis e construção civil.

“Iniciamos com um universo de 150 espécies de madeira e agora estamos com 400 espécies para serem analisadas, primeiro quanto às suas propriedades físicas, depois em termos de ressonância musical”, explica o pesquisador. A seleção leva em conta peso, volume, flexibilidade, elasticidade, dureza, tração, resistência à compressão e cisalhamento (ou deformação durante o corte).

Pelo menos 50 espécies são consideradas promissoras e devem ser oferecidas a indústrias e luthiers (fabricantes artesanais de instrumentos musicais) para avaliação, em novas parcerias com o Ibama.

No caso das gaitas, houve uma coincidência, que acabou apressando a pesquisa: o músico Pablo Fagundes formou-se engenheiro florestal, em 2002, apresentando a construção dos instrumentos de madeiras brasileiras como projeto de fim de curso, na Universidade de Brasília, sob orientação de Souza. Segundo ele, as gaitas diatônicas profissionais disponíveis no mercado brasileiro ou são construídas com plástico ou são importadas, feitas com madeira de pereira. “Estas gaitas tradicionais apresentam problemas nas cidades litorâneas brasileiras, de inchamento, devido à maresia e umidade”, diz. O inchamento chega a prejudicar a performance do músico e às vezes até deforma o instrumento, se alguns ‘dentes’ pulam fora do bocal.

As gaitas de madeiras amazônicas foram testadas inclusive quanto à resistência à umidade, apresentando resultados melhores do que as similares importadas. De um universo de 100 espécies de madeira, 10 foram pré-selecionadas para as gaitas, 8 testadas e 3 aprovadas para fabricação. Entre elas, Fagundes percebeu algumas diferenças sutis de timbre, o que talvez resulte na indicação de um tipo de madeira para cada gênero musical, como o açoita-cavalo para tocar blues e ipê para ritmos brasileiros.

“Esta indicação ainda carece de estudos maiores, da opinião de diversos músicos. Vamos colocar os instrumentos na mão de vários gaitistas para confirmar as diferenças”, observa o músico, que há 5 anos toca na noite brasiliense, nas bandas Pé de Cerrado, de música brasileira, e Celso Salim, de blues. Pablo Fagundes gravou um CD-Rom com as novas gaitas e se apresenta no lançamento dos instrumentos. Em dois anos, todos os instrumentos musicais feitos com madeiras amazônicas também constarão de um catálogo em CD-Rom, com demonstrações acústicas, para tornar as novas alternativas conhecidas dos fabricantes, incluindo indústrias internacionais.