A hora da decisão se aproxima

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Publicado sexta-feira, 3 de junho de 2016 as 12:04, por: cdb

A realidade está disposta no Senado. A decisão, conheceremos daqui mais alguns dias

 

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

 

O Brasil chega, rapidamente, ao ponto de não retorno na decisão de ser, ou não ser, uma república civilizada. Refém de um sistema de comunicação privado, de propriedade das seis famílias mais ricas do país — todas brindadas por concessões públicas —, o eleitor de classe média compra, desde a metade do século passado, o ideal exportado pela inteligência norte-americana aos países da América do Sul. Contando para tanto, claro, com o apoio abjeto de seus agentes nativos.

A Presidência da República divulgou neste sábado nota afirmando que o senador Delcídio do Amaral (sem partido-MS) segue “sua estratégia de vingança
A Presidência da República está em jogo, junto com os valores mais caros à sociedade brasileira

O padrão se repete nos países vizinhos, mas vamos nos ater à realidade brasileira. Nas últimas eleições, a presidenta Dilma Rouseff venceu o adversário que representa aqueles brasileiros que miram, naquilo que os EUA lhes pareçam, o lugar que gostariam de viver, criar seus filhos, família. Adoram Miami. Chegam ao êxtase na Times Square. Veem-se, nas novelas alienantes, passeando pela Disneylândia. Batem panelas para a promoção de golpes de Estado e se dispõem a aplaudir réus, como Eduardo Cunha, acusados na Corte Suprema de Justiça do país por corrupção e desvios milionários de recursos públicos.

Os brasileiros que votaram em Dilma Rousseff disseram, nas urnas, que não é esse o país no qual desejamos passar nossas vidas, ver nossos filhos e netos crescer e prosperar. Dilma venceu as eleições por uma pequena margem. Mas venceu. Traduz-se, por suposto, que a maioria dos eleitores, ainda que frágil, pretendia que o país fosse diferente. Uma nação integrada a um outro mundo possível, no qual países como a China, a Rússia, a Índia, a África do Sul e tantos outros, todos não alinhados a Washington e aos seus interesses, tecem esforços para estabelecer uma nova ordem econômica e política, em nível mundial.

No dia seguinte à vitória de Dilma, nas urnas, os líderes desses brasileiros norte-americanizados lançaram-se na aventura que, em mais alguns dias, terá o condão de sequestrar dois anos e meio de mandato que ainda resta ao campo majoritário da população. Isso, no mínimo, pois está instaurada a insegurança jurídica no Brasil, desde o afastamento da presidenta da República. Conforme Dilma tem denunciado, à larga, há um golpe de Estado, em curso no Brasil”.

Chegamos, assim, à encruzilhada da História na qual diremos, à humanidade, se desejamos transmitir, na nossa herança, o ideário encabeçado por todos os Bolsonaros e Alexandres Frotas deste inferno, que prega a matança dos desvalidos, o estupro, o racismo desvelado e o fim dos direitos trabalhistas, ou a luta por um país mais justo e igualitário, como nas canções de Chico Buarque e Taiguara. A realidade está disposta no Senado. A decisão, conheceremos daqui mais alguns dias.

O risco de um retrocesso, econômico e social, está escondido no noticiário impresso por aqueles mesmos meios de comunicação que levaram Getúlio Vargas ao suicídio. Grande parte dos brasileiros ainda está alheia ao perigo e somente as grandes manifestações, nas ruas, terá o condão de amedrontar os articuladores golpistas. Está na hora de refletir e, diante dos fatos, protestar.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do diário Correio do Brasil.