Homem que atropelou crianças é linchado em São Paulo

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Publicado domingo, 27 de abril de 2003 as 21:59, por: cdb

Revoltados com o atropelamento e a morte de uma criança de 7 anos que brincava na rua, em frente a uma festa de aniversário, mais de 30 moradores do Parque Jardim Cocaia, no Grajaú, zona sul, lincharam o motorista, no fim da noite de ontem. Armados com paus, pedras e facas, eles espancaram Gilmar Alves de Araújo, de 27 anos, até a morte. A revolta continuou no necrotério do hospital. O mesmo grupo forçou a entrada para tentar colocar fogo no corpo. Uma outra criança, também atropelada, continua internada.

Araújo estava numa festa na Rua José Carlos Heffner e tinha bebido demais. Na saída, discutiu com a mulher, Eranilza Ferreira Oliveira dos Santos, de 33 anos. Grávida de quatro meses, ela não se conformava com a conduta do marido. Aos gritos dizia que fora “desrespeitada” por ele ter “se insinuado” para uma outra mulher.

A discussão ocorreu em frente da residência onde havia outra festa, a do aniversário, da garota Paloma, que completava 7 anos. No interior do Escort branco, de Araújo, no auge da discussão com Eranilza, ela desceu do carro e avisou que voltaria a pé para casa, no mesmo bairro. Segundo testemunhas ouvidas pela polícia, o nevoeiro era forte no bairro e Araújo obrigou a mulher a entrar no carro para que pudessem ir embora. “Ele começou a acelerar e deu marcha à ré. O carro, em velocidade, foi na direção das crianças que brincavam na calçada”, disse à polícia Paulo Limeira, um dos moradores. A lateral esquerda traseira do Escort prensou duas crianças contra a parede na frente da casa do aniversário. Mateus dos Santos, de 7 anos, teve a cabeça esmagada pelo Escort e morreu. Alex José dos Santos, de 10 anos, foi levado para o Hospital Maria Antonieta. As outras crianças passaram a gritar e chamaram a atenção dos pais, tios e primos, que estavam na festa. Araújo desceu do carro e, ao ver os meninos feridos, saiu do veículo, disse para a mulher ir para casa e correu em direção de uma avenida.

O grupo que deixou a festa o alcançou na Avenida Dona Belmira Marin, onde passou a ser espancado. Foram seguidos golpes com facas, paus e pedras. Quando militares de uma ronda do 27.º Batalhão chegaram, Araújo estava caído no meio fio e não respirava. As pessoas fugiram com a chegada do carro da polícia. Levado ao Hospital e Pronto-Socorro do Grajaú, já chegou morto. Os amigos dos tios de Mateus tentaram invadir o necrotério do Pronto-Socorro. Dois rapazes com um saco plástico com gasolina pretendiam colocar fogo no corpo de Gilmar e foram impedidos por militares.

O comerciante Teles de Oliveira e a mulher Natalina Camargo, tios de Mateus, ouvidos na polícia, negaram ter participado do linchamento. Informaram que o menino estava morando com eles e pedira para brincar com as outras crianças, apesar da hora. “Lá na rua quando tem festa as crianças ficam até tarde fazendo companhia para os adultos”, declarou Oliveira.

O delegado Stefan Uzkurat, do 101.º Distrito Policial, instaurou inquérito e tenta identificar os responsáveis pelo linchamento. Ninguém foi preso.