Gurgel favorece oposição com declarações sobre Lula

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Publicado quarta-feira, 9 de janeiro de 2013 as 11:04, por: cdb
STF
Presidente do STF, o ministro Ayres Britto observa Gurgel

Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel deu mais um passo na direção desejada pela oposição às esquerdas no país ao afirmar que pensa em enviar à primeira instância o depoimento do operador do ‘mensalão’, Marcos Valério de Souza, no qual ele acusa o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de usar recursos do esquema para pagar despesas pessoais. Como ex-presidente, o petista não têm mais o chamado foro privilegiado, que restringe investigações e processos contra autoridades a instâncias superiores da Justiça. Gurgel passará agora à fase de exame do depoimento e deverá encaminhar o documento para o primeiro grau após voltar de férias, ainda neste mês.

A notícia de que ele já havia mandado o processo para a primeira instância, divulgada na edição desta quarta-feira do diário conservador paulistano O Estado de S. Paulo, foi desmentida por Gurgel. Em nota, distribuída no início desta tarde, o procurador-geral afirma que ainda não iniciou a investigação sobre as declarações de Valério, mas pretende fazê-lo agora.

“A Secretaria de Comunicação do Ministério Público Federal informa que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ainda não iniciou a análise do depoimento de Marcos Valério, pois aguardava o término do julgamento da AP 470 (mensalão). Esclarece ainda que somente após a análise poderá informar o que será feito com o material. Portanto, não há qualquer decisão em relação a uma possível investigação do caso”, informa a PGR.

Na véspera, Gurgel disse que pensava enviar o caso à primeira instância. Caberá então a procuradores que atuam na primeira instância da Justiça avaliar se abrem uma investigação contra Lula ou se arquivam o caso, se entenderem não haver indícios contra ele. Em dezembro, Gurgel já havia dito que, caso algo fosse encontrado em relação a Lula, o caso seria “encaminhado à Procuradoria da República de primeiro grau”.

Uma vez recebidas as informações de Valério, no segundo semestre do ano passado, Gurgel decidiu aguardar até o final do julgamento da Ação Penal (AP) 470, conhecido como ‘mensalão’, concluída em dezembro com 25 condenados, entre eles o próprio Valério e o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Na avaliação das duas procuradoras da República que tomaram o novo depoimento de Valério, e do próprio Gurgel, não haveria nenhum fato bombástico, apenas informações que confirmariam o que foi denunciado ao STF.

A única informação nova seria a de que recursos provenientes do Banco Rural teriam sido usados não só para alimentar o esquema, mas também para pagar contas pessoais do presidente Lula. O ex-presidente tem evitado se manifestar, mas disse que as declarações de Valério são mentirosas. Concluída a AP 470, o procurador-geral chamou Marcos Valério de “jogador”, mas argumentou que nada deixaria ser investigado.

– Com muita frequência Valério faz referência a declarações que ele considera bombásticas etc., e quando nós vamos examinar em profundidade não é bem isso. Mas vamos ver o que existe no depoimento – disse, na época.

O Instituto Lula informou ao jornal que o ex-presidente está viajando e não comentaria a decisão do MPF de iniciar investigação sobre as acusações de Valério. Procurados por jornalistas, representantes da instituição e do MPF no Distrito Federal não estavam imediatamente disponíveis para comentar o caso.

Jogo político

Na visão do professor Antonio Lassance, cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), há um movimento orquestrado no país para trazer a 2013 o início da disputa pela cadeira da presidenta Dilma Rousseff. Com a participação ativa da mídia conservadora, esta iniciativa visa criar a máxima instabilidade possível, logo no raiar do ano, para ter uma chance de chegar ao segundo turno contra a presidenta, em 2014.

“A oposição sabe que o ano-chave das eleições não é 2014, é 2013. Ou ela começa já a derrubar a popularidade de Dilma, incentiva candidaturas competitivas e estigmatiza de vez o partido da presidenta, ou pode dar adeus não só às suas remotas chances de vitória, mas de que haja segundo turno em 2014. O “timing” para fazer isso é 2013, ou será tarde demais para conseguir tirar a vantagem que hoje tem a presidenta contra qualquer adversário”, afirma Lassance.

Para atingir Dilma, também segundo cronistas políticos como o jornalista Paulo Henrique Amorim (PHA), apresentador de um telejornal em TV aberta, é preciso bater em Lula. No Judiciário, a oposição encontrou espaço de sobra para fazer a manobra que visa solapar a credibilidade do PT, de seu principal líder e, por consequencia, da titular do partido no Planalto. Segundo PHA, “Roberto Gurgel é aquele que o senador Fernando Collor denuncia como prevaricador e chantagista”.

“Gurgel foi aquele que, na calada da noite, retirou o pedido de prisão do Dirceu e do Genoíno enquanto o Supremo estava em sessão, para reapresentá-lo quando a decisão cabia apenas ao Presidente Barbosa. Foi uma manobra tão extravagante que Barbosa aplicou uma derrota a Gurgel. Gurgel não leu o Privataria Tucana, embora o Presidente Barbosa tenha recomendado”, afirma o colunista.

PHA lembra que “o sinistro mandato de Gurgel se encerra em abril. Caberá à Presidenta Dilma escolher o substituto, que não precisa ser, como tem sido, da lista elaborada pelos procuradores”. Embora o mandato de Gurgel tenha apenas mais alguns meses pela frente, como lembrou o professor Antonio Lassance, ainda há desdobramentos da AP 470 que tendem a contribuir para os planos da oposição.

“Os estigmas mais fortes virão dos desdobramentos do mensalão. A oposição ambiciona as imagens de petistas indo para a carceragem, se possível, algemados; melhor ainda se forem pegos de pijama e seguirem para a prisão em camburões, filmados pelos helicópteros das redes de TV. Os novos alvos ficam por conta da batalha pela redução das tarifas de energia, confrontada com o fantasma do apagão, e da gestão da prefeitura de Haddad, que poderá ser alvo da mesma tentativa de erundinização que se viu na campanha de 1989 contra Lula, quando uma administração boa e séria foi transformada em um péssimo exemplo pelos adversários”, concluiu.

Matéria atualizada às 13h06