Greenspan já prevê uma nova crise mundial

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Publicado quarta-feira, 9 de setembro de 2009 as 12:22, por: cdb

O ambiente pessimista que ainda perdura no mundo encontrou eco, nesta quarta-feira, na entrevista do ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano, na sigla em inglês), Alan Greenspan. Ele aguarda uma nova crise financeira no mundo. Segundo e economista, desta vez “será diferente”, disse ele ao programa Love of Money, da emissora inglesa de TV BBC Two. Segundo o norte-americano, a nova crise viria como uma reação a um longo período de prosperidade. Segundo Greenspan, apesar de levar tempo e de se tratar de um processo difícil, a economia global eventualmente irá “superar” a crise.

Alan Greenspan foi o presidente do Fed por 18 anos, deixando o cargo em 2006. Durante esse período, era considerado uma das pessoas mais influentes do mundo, uma vez que suas decisões a respeito da condução da economia americana afetavam diretamente todo o sistema financeiro global. Uma das maiores críticas feitas a Greenspan é que ele manteve as taxas de juros norte-americanas baixas demais por um tempo excessivo, facilitando a oferta de crédito e, assim, alimentando a bolha imobiliária que está na raiz da atual crise.

As declarações do ex-presidente do Fed coincidem com o aniversário da quebra do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, que desencadeou a atual crise financeira global.

– As crises financeiras são todas diferentes, mas todas têm uma fonte fundamental, a insaciável capacidade dos seres humanos quando confrontados com um longo período de estabilidade de presumir que esse período continuará – disse Greenspan.

Segundo o economista, o comportamento faz parte da “natureza humana”.

– É a natureza humana, até que alguém encontre uma forma de mudar essa natureza, teremos mais crises e nenhuma delas será como essa porque nenhuma crise tem algo em comum com a outra, além da natureza humana – afirmou.

Greenspan afirmou ainda que a crise atual foi desencadeada pelas negociações das hipotecas subprime nos EUA, quando empréstimos foram liberados a pessoas com histórico ruim de crédito, mas ele afirmou que qualquer outro fator poderia ser o catalisador do problema.

– Se não fosse pelo problema dessas dívidas podres, algo teria emergido mais cedo ou mais tarde – disse Greenspan.

Apesar disso, o ex-presidente do Fed afirmou que a crise atual é “um evento que ocorre uma vez por século” e que ele não esperava testemunhar um evento como esse.

Riscos

Greespan alertou também que as instituições financeiras deveriam ter observado que uma crise estava a caminho.

– Os banqueiros sabiam que estavam envolvidos em um risco de subavaliação e que em algum ponto uma correção seria necessária. Eu temo que muitos tenham pensado que seriam capazes de identificar o estopim da crise em tempo de sair fora – afirmou Greenspan.

O ex-presidente do Fed fez algumas recomendações para prevenir uma nova crise financeira. Segundo ele, é necessário que financistas e governos procurem combater a fraude e aumentem os requisitos de capital para os bancos e recomendou ainda uma maior regulação do sistema bancário. O economista advertiu ainda que qualquer medida que vise o caminho para a recuperação econômica deve se afastar do protecionismo.

– Não há como ter livre comércio global com mercados domésticos muito restritivos ou regulados com muita rigidez – afirmou.

Pessimismo

Aqui no Brasil, os economistas retornaram ao pessimismo em relação ao futuro em pesquisa realizada em agosto, segundo estudo realizado pela Fecomercio-SP em parceria com a Ordem dos Economistas do Brasil (OEB). O Índice de Sentimento dos Especialistas em Economia (ISE) apresentou queda de 6,8% em agosto contra o mês anterior, descendo de 105,4 pontos em julho para 98,2 pontos. O índice vinha de quatro altas consecutivas, alcançando em julho o patamar de otimismo pela primeira vez desde agosto de 2008.

– Este novo resultado mostra que os especialistas estão cautelosos em relação à economia – afirmou Guilherme Dietze, economista da Fecomercio.

O indicador é composto por dois subíndices: O Atual, que analisa o sentimento dos economistas em relação ao presente, e o Futuro, que mede o sentimento em relação ao futuro. Acima de 100 pontos o ISE é considerado otimista. Em agosto, a maior pressão sobre o índice geral para baixo foi a avaliação futura que caiu 13,6% em relação a julho, mas ainda permanece no patamar de otimismo com 109,2 pontos. Já a avaliação atual subiu 3,4%, quarta alta consecutiva, atingindo os 87,2 pontos, mas permanece no patamar de pessimismo.

Dos nove itens analisados pelo ISE, três contribuíram para a queda do indicador: Gastos Públicos, com redução de 70% (10,1 pontos), Taxa de Inflação, com queda de 20,5%, (83,8 pontos) e Taxa de Juro, com redução de 28,5% (56,4 pontos).

Dietze afirmou também que o resultado pessimista em relação a esses três itens deve-se à avaliação dos economistas de que daqui a um ano vai haver uma pressão de preços em consequência de três principais fatores: Das políticas adotadas atualmente pelo governo de estímulo ao consumo, da melhora da economia como um todo principalmente no que refere a emprego e renda.

Segue-se o fato de que 2010 é um ano eleitoral e, desta forma, é possível prever um aumento ainda maior do que há atualmente dos gastos públicos.

– Com esses fatores, os economistas já creem que no próximo ano, o Banco Central deverá elevar a taxa de juros para conter as pressões de preços, o que tornará a taxa inadequada à economia – afirmou Dietze a jornalistas.