Grécia: Governo não eleito continua a fugir das eleições

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Publicado segunda-feira, 9 de abril de 2012 as 05:50, por: cdb

O governo grego não eleito prepara-se para adiar mais uma vez a marcação da data das eleições gerais, a pretexto de ainda não ter conseguido chegar a acordo com os credores privados que, por sua vez, não aceitaram a solução de troca de obrigações estabelecida com a maioria dos detentores privados de dívida grega.Artigo |9 Abril, 2012 – 12:43O atual governo grego não eleito é como um Cavalo de Tróia que entrou em Atenas iludindo os atenienses.

O governo grego não eleito grego prepara-se para adiar mais uma vez a marcação da data das eleições gerais a pretexto de ainda não ter conseguido chegar a acordo com os credores privados que não aceitaram a solução de troca de obrigações estabelecida com a maioria dos detentores privados de dívida grega. A data deveria ter sido anunciada esta semana, mas o porta-voz do governo, Pantelis Kapsis, anunciou esta quarta-feira que isso só acontecerá, provavelmente, na próxima [nesta] semana.

Este cenário torna cada vez mais prováveis as possibilidades de as eleições, previstas vagamente para Maio, depois de terem sido anunciadas inicialmente para Fevereiro, se irem protelando sucessivamente com base nas alegadas dificuldades para finalizar o processo que permitirá, finalmente, a chegada a Atenas do segundo resgate, nas condições impostas pela troika. Entretanto, o governo não eleito de Papademos vai impondo, e já, o pacote de austeridade associado a esse resgate.

A conversão de 20.270 milhões de euros correspondentes às dívidas aos credores que não aceitaram o processo de troca de obrigações, conhecido como “perdão” da dívida, deveria estar concluído a 11 de Abril, o que já não acontecerá porque o governo de Atenas afirma que não tem meios para o fazer. A próxima data prevista é a de 20 de Abril.

A chegada do segundo resgate já acordado está, porém, dependente também do acordo com os credores que não aceitaram “o perdão”. E, segundo o entendimento do governo, a marcação de eleições só poderá acontecer quando esse processo estiver concluído.

A Grécia debate-se agora com três opções: i. continuar a pagar as dívidas aos credores que não aceitaram o processo, sobrecarregando os encargos que estiveram na base da definição do valor do resgate; ii. entrar em incumprimento nesse sector, abrindo contenciosos; iii. ou fazer uma nova proposta aos recalcitrantes, o que obrigaria a reconverter todo o acordo com os restantes, gerando uma nova onda de encargos em relação aos cálculos, tal como estão feitos atualmente.

Este arrastamento começa a ser interpretado como um mau sinal da Grécia, em direção aos restantes países europeus – o de que a marcação de consultas populares pode passar a ficar refém de alegadas negociações ou manifestações de insatisfação dos mercados em relação ao cumprimento dos acordos de dívida. E, num momento em que as intenções de voto das várias forças de esquerda gregas que querem rejeitar o memorando da troika, excluindo o PASOK que se converteu ao neoliberalismo, atingem 35 por cento, começa a haver receios de que as eleições continuem de adiamento em adiamento, enquanto o governo não eleito vai impondo fatos consumados.

“Existem outras vias, mais democráticas, para combater a crise social e económica”

Uma delegação da Esquerda Europeia que integrou o presidente do Die Linke da Alemanha, Gregor Gisy, e o presidente do Partido da Esquerda Europeia, Pierre Laurent, encontrou-se em Atenas com o presidente grego, Carolias Papoulias, a quem afirmou que apesar da opinião dominante nos governos e instituições europeias e da opção única pela política de austeridade existem outras vias, mais democráticas, para combater a crise social e económica.

Alexis Tsipas, presidente da coligação de esquerda Syriza, afirmou durante a audiência que “a Grécia é um país soberano e que o povo grego tem o direito a definir o seu próprio destino; e que se alguns pensam em adiar as eleições é necessário que assumam as consequências dessa sua opção”.

Na mesma audiência, o presidente do Die Linke afirmou que “é preciso ajudar este país”, pelo que as próximas eleições poderão “representar uma mudança”. “É preciso enviar uma mensagem à Europa”, acrescentou, “é preciso mostrar o que queremos verdadeiramente: uma Europa da democracia e da justiça social”.

Artigo publicado no portal do grupo parlamentar europeu do Bloco de Esquerda.