Graziano não consegue convencer oposição sobre eficácia do Fome Zero

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Publicado quinta-feira, 27 de março de 2003 as 13:49, por: cdb

O ministro da Segurança Alimentar, José Graziano, foi ouvido nesta quinta-feira no Senado, por mais de três horas, mas não conseguiu convencer a oposição sobre o eficácia do principal programa social do governo, o Fome Zero.

Ele falou das dificuldades em implantar o programa, de sua abrangência e da forma receptiva como a sociedade respondeu à iniciativa. Mas deixou frustrados os senadores de oposição, que queriam saber quando as “medidas assistencialistas” serão substituídas por investimentos capazes de gerar empregos nas regiões carentes do País.

“O ministro foi didático, mas não foi prático e fugiu das respostas”, criticou o senador Efraim Morais (PFL-PB) Morais. “Ele é teórico, não conhece a realidade da fome do Nordeste”. Em defesa do ministro Graziano, o líder do governo, Aloizio Mercadante (PT-SP), disse que a geração de empregos depende de outros programas já em andamento e não do Fome Zero.

“Eles (oposição) foram para lá achando que iriam demitir o ministro e terminaram consagrando-o”, afirmou Mercadante.

Frase infeliz

Graziano foi convidado a falar em três comissões do Senado – Constituição e Justiça, Assuntos Sociais e Assuntos Econômicos – quando da votação de requerimento do senador Almeida Lima (PDT-SE) que propunha um voto de censura contra ele.

O senador sergipano queria impor uma censura ao ministro por ele ter relacionado, em fevereiro, durante solenidade na Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), a violência no Estado à migração dos nordestinos. Disse na ocasião que “se eles (os retirantes) continuarem vindo para cá, vamos ter de continuar andando em carros blindados”.

O ministro começou seu depoimento se desculpando pela “frase infeliz que gerou justa reação e indignação”. “Essa frase infeliz não reflete o que eu penso nem o que eu tenho feito ao longo de minha vida”, alegou.

Mas a oposição não deu folga ao ministro. O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), pediu informações sobre os gastos da viagem do presidente Luiz Inácio da Silva e de seus ministros a Guaribas, Piauí, primeira cidade atendida pelo Fome Zero. “Temo que tenha custado muito mais do que os benefícios levados à população”, afirmou.

O líder governista disse que, se o debate ficasse nesses termos, ele iria questionar o custo das viagens do ex-presidente Fernando Henrique. “Como aquela da França, quando viajaram não apenas os netos mas também a babá´”, atacou.

A defesa de Graziano ficou basicamente por conta de Mercadante. “Chegamos à conclusão que não precisamos chamar nenhum ministro, basta deixar o Mercadante falar”, ironizou o senador Ney Suassuna (PMDB-PB).

Para o tucano Romero Jucá (RR), o líder parecia “o xerife” ao lado do depoente. “Só usei o direito de replicar quando fui citado, falei 7 minutos em três horas” defendeu-se o líder petista.

O ministro demonstrou cautela nas suas palavras para não melindrar os senadores, sobretudos os nordestinos. Ainda assim, teve de ouvir uma longa dissertação do senador Mão Santa (PMDB-PI) por ter dito que a escolha de Guaribas para o lançamento do Fome Zero se deu em decorrência das condições precárias da cidade.

“Para os senhores terem uma idéia, lá não tinha banheiro e nós tivemos de construir um, quando lá estivemos”, contou Graziano. Mão Santa, ex-governador do Piauí, protestou: “Lá tem banheiros modestos, tem vereador, prefeito, calçada”, alegou. “Uma coisa é receber ajuda do governo, outra é ser humilhado”.

Mão Santa ainda provocou os petistas, dizendo que deve ter ocorrido com a comitiva presidencial o mesmo que se passou com a então senadora Bendita Silva (PT-RJ), que não gostou do banheiro do apartamento funcional que recebeu e pediu que lá fosse instalado uma banheira de hidromassagem. O ministro disse que sua intenção não foi a de usar a cidade para estigmatizar a pobreza.