Grandes falhas e bons filmes: teve de tudo no Festival de Veneza

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 13 de setembro de 2004 as 13:54, por: cdb

O Festival de Cinema de Veneza brilhou como nunca este ano, com a presença de diversos grandes nomes de Hollywood e diretores de arte bem cotados. Mas a maior parte do público talvez se recorde principalmente dos muitos atrasos e das falhas lamentáveis da organização.

O produtor de cinema e ex-diretor do festival de cinema de Locarno Marco Muller foi indicado para dirigir o festival de cinema mais antigo do mundo meses apenas antes de seu início, este ano.

Ele agradou aos críticos com os filmes selecionados para o festival, mas os produtores, agentes e membros do público geral que lotaram o Lido para a 61a edição do festival acharam que os organizadores não se mostraram à altura da tarefa empreendida.

“Não conseguimos operar milagres, por mais que tentássemos”, desculpou-se David Croff, presidente da Bienal de Veneza, responsável pelo festival.

No auge da confusão, Al Pacino viu-se sem lugar para sentar na pré-estréia de seu próprio filme. A passagem de Johnny Depp pelo tapete vermelho, na exibição de “Finding Neverland”, teve um atraso de duas horas, tendo começado às 2h da manhã.

Na cerimônia de entrega dos prêmios, na noite de sábado, o apresentador esqueceu-se de premiar o melhor diretor e precisou voltar para essa categoria logo antes de conceder o Leão de Ouro ao filme “Vera Drake”.

Mas talvez um dos incidentes mais incômodos, em termos diplomáticos, tenha sido o atraso enorme da pré-estréia do mais caro filme já produzido na Malásia.

O príncipe herdeiro da Malásia e um grupo de músicos usando trajes tradicionais encontraram o cinema praticamente vazio quando a sessão do filme finalmente começou, depois da meia-noite. Uma semana mais tarde, o festival promoveu uma sessão pública gratuita do filme para desculpar-se pelo ocorrido.

Um veterano agente publicitário europeu descreveu o festival deste ano como “amador”, mas os organizadores disseram que o evento virou vítima de seu próprio sucesso.

Eles atribuíram a culpa ao público maior do que o previsto, à exigência dos estúdios de Hollywood de que seus filmes fossem concentrados nos cinco primeiros dias, às longas sessões de autógrafos dos astros no tapete vermelho e à infra-estrutura ultrapassada.

Mesmo assim, crescem as especulações segundo as quais alguns cargos de alto escalão podem estar em risco, especialmente porque, antes do início do festival, o ministro da Cultura da Itália, Giulio Urbani, afirmou que, com sua equipe escolhida a dedo, o festival de 2004 seria algo para ser recordado.

“Acho que não cometeremos o mesmo erro duas vezes”, comentou Muller, que tem um contrato de quatro anos para a direção.

Os organizadores já propuseram uma solução de longo prazo: a construção de um cinema grande para tomar o lugar do tradicional Art Deco, que possui lugar para apenas mil pessoas. Mas essa meta levará pelo menos três anos para ser alcançada.

“Meu principal problema são os filmes americanos”, disse Muller, dizendo que, no próximo ano, ele talvez elimine as exibições “fora da competição” de blockbuster de Hollywood.

Ele diz que pode pensar em reduzir o número de filmes da competição oficial — este ano foram 22 — ou eliminar a seção Horizontes, de filmes lançadores de tendências.

“O problema é que os trabalhos que sofrem os efeitos do congestionamento são justamente os menores e mais frágeis, que nós deveríamos destacar”, disse Muller.