Governo uruguaio expulsa embaixador de Cuba

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Publicado quarta-feira, 24 de abril de 2002 as 21:19, por: cdb

O governo uruguaio expulsou hoje o embaixador cubano em Montevidéu, Joaquín Alvarez Portela, e retirou seu representante em Havana, Enrique Estrázulas, um dia depois de anunciar a ruptura de relações diplomáticas com Cuba por causa das ofensas ditas pelo presidente Fidel Castro. Alvarez Portela qualificou hoje de “exagerada” a decisão do Uruguai de romper relações diplomáticas, estabelecidas em 1986, informou que foi declarado “persona non grata” e que lhe deram “um prazo razoável” para deixar o país. “Neste país pululam pelas ruas torturadores e assassinos que em uma época cometeram graves crimes contra o povo uruguaio”, disse o diplomata a um grupo de jornalistas que o aguardava diante da embaixada.

Alvarez Portela referiu-se à ditadura militar que governou o Uruguai entre 1973 e 1985 e à lei que impossibilitou o julgamento dos responsáveis por violações dos direitos humanos para explicar por que pediu maiores medidas de segurança. A ruptura de relações foi desatada depois que Fidel atacou na segunda-feira o presidente uruguaio, Jorge Batlle, qualificando-o de “tresnoitado e abjeto Judas” por ter impulsionado nas Nações Unidas, a pedido dos EUA, uma resolução sobre direitos humanos em Cuba. Também pela televisão, na terça-feira Fidel qualificou Battle como um “lacaio” dos EUA e assegurou que Cuba era um “gigante moral”.

As declarações do líder cubano foram feitas poucos dias depois de seu chanceler, Felipe Pérez Roque, qualificar Uruguai, Argentina e Costa Rica, que apoiaram a proposta na Comissão de Direitos Humanos da ONU, como “serviçais” dos EUA.

Fidel pareceu na terça-feira à noite dar pouca importância ao anúncio de Batlle de ruptura de relações – ao qual dedicou apenas uns minutos numa intervenção de mais de três horas -, mas destinou maior importância ao caso do México, país com o qual o líder cubano também provocou uma crise diplomática ao divulgar na segunda-feira uma conversação telefônica privada entre ele e o presidente mexicano, Vicente Fox.

Segundo Fidel, a conversa é uma prova de que Fox queria que ele deixasse rapidamente uma cúpula em Monterrey para evitar um encontro com o presidente americano, George W. Bush. Fidel divulgou o teor da conversa depois que o México – que tradicionalmente se abstinha em votações da comissão da ONU sobre Cuba – se pronunciou a favor da proposta criticando a situação de direitos humanos na ilha.

O líder cubano disse que estava “totalmente de acordo” com a decisão mexicana de manter as relações diplomáticas com Cuba, que cumprirão 100 anos em maio e qualificou Fox de “pessoa decente”, mas que “não tem experiência política”. A ruptura diplomática com o Uruguai e o virtual congelamento das relações com o México deixou Cuba em uma situação de maior isolamento na América Latina.

O chanceler mexicano, Jorge Castañeda, disse hoje que Fidel “vive do escândalo”, ao reiterar que o México não romperá relações com Cuba, mas advertindo que responderá “golpe a golpe” às acusações das autoridades da ilha. Ele atribuiu o conflito “a uma montagem” de Fidel para desviar a atenção dos problemas internos de Cuba. “Isto é uma anedota, um incidente (…) as relações já duram 100 anos e sem dúvida durarão mais 100 anos e não vamos rompê-las”, disse Castañeda.