Governo reafirma ênfase Sul-Sul

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Publicado quinta-feira, 3 de janeiro de 2008 as 15:46, por: cdb

O debate sobre as diretrizes da política externa brasileira ganhou um importante eixo de reflexão. Em fins de agosto, o ministro Celso Amorim proferiu discurso no Tribunal de Contas da União (TCU). O tema central de sua explanação foi a diretriz da política do comércio exterior brasileiro, levada a cabo pelo seu ministério.

Seu texto é de uma clareza iluminista. Ao longo de poucas páginas, o leitor pode detectar, sem maiores problemas de compreensão ou ambigüidade, as principais linhas de nossa política na importante esfera do comércio exterior. A rigor, podemos identificar algo ainda mais relevante: a estratégia brasileira nas negociações comerciais, em especial, na célebre Rodada de Doha.

O balanço apresentado pelo ministro, que poderá ficar a frente do ministério durante mais tempo que o legendário Barão do Rio Branco, impressiona. As exportações brasileiras cresceram, a partir de 2002, mais do que a média mundial. Para ser mais preciso, saltaram de um patamar de 0,9% para 1,15%. Essa performance coloca o Brasil em uma posição mais digna e competitiva no ranking dos global players. Em 2002, estávamos na 27ª posição e atualmente somos o 23º maior exportador. A Alemanha ocupa a primeira posição, respondendo por 9,3% das exportações mundiais.

Além disso, as exportações brasileiras não cessam de ocupar proporções mais significativas no Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Em 2002, por exemplo, respondiam por 8,5% do PIB, atualmente esse índice alcançou a marca de 13%. O superávit de nossa balança comercial atingiu o significativo índice de 46 bilhões de dólares. O dado mais relevante, no entanto, vem da área de investimentos. Tradicionalmente na posição de país em fase de desenvolvimento, o Brasil se colocou ao longo das últimas décadas na posição de receptor de investimentos externos. Todavia, em 2006, invertemos os sinais desse paradigma. Os investimentos do Brasil no exterior superaram os investimentos recebidos. Esse dado é muito relevante e está carente de análises mais aprofundadas. Enquanto tais análises não são elaboradas, um aspecto parece indiscutível: o setor externo ocupa, dia-a-dia, posição mais auspiciosa no conjunto da riqueza nacional.

Segundo Celso Amorim, tal fato está diretamente relacionado à nova geografia comercial, que é resultado e expressão das transformações mais amplas que atingem o comércio internacional. Nessa senda, o Ministro afirma que as exportações brasileiras experimentam novos e promissores cenários: aumentaram em termos de escala e há uma crescente diversidade de produtos que compõem a pauta de exportação. Em outras palavras, atingiram grau de diversificação e distribuição equilibradas e singulares. Em 2006, do total de nossas exportações, 26,5% foram para países da América Latina, 22% para União Européia, 18% para os Estados Unidos, e 15% para a Ásia.

De fato, os resultados acima são expressão de uma conjunção de iniciativas políticas que delinearam ações com ênfase em países e regiões do Hemisfério Sul. Houve um aumento significativo da participação das empresas brasileiras no âmbito regional, isto é, nos países do Mercosul. Entre 2003 e 2005, por exemplo, as empresas brasileiras investiram aproximadamente 16 bilhões de dólares na América do Sul, sendo que o governo brasileiro financiou mais de 40 projetos de infra-estrutura em países vizinhos.

Apesar dos números significativos, não faltam críticos para a auto-proclamada ênfase sul-sul, alertando para a necessidade de o país olhar para cima e desenvolver políticas comerciais de aproximação com a União Européia e, principalmente, sistematizar acordos comerciais bilaterais com os Estados Unidos. Argumentam os críticos da ênfase sul-sul que o Brasil está perdendo as amplas possibilidades que o comércio internacional tem oferecido. O governo, entretanto, teima em pôr os fundamentos ideológicos diante dos interesses comerciais estratégicos.

No entanto, pode-se colocar outra questão à mesa da