Governo quer discutir, mas eleições contaminaram o projeto

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Publicado segunda-feira, 30 de agosto de 2004 as 11:53, por: cdb

O projeto das Parcerias Público-Privadas está irremediavelmente contaminado pela disputa político-partidária. Por mais que o governo se esforce para concentrar o debate nas questões de mérito, o receio da oposição de que esse instrumento favoreça os partidos governistas nos próximos embates eleitorais é a principal dificuldade para o avanço da discussão no Congresso.

Isso ficou evidente na sessão desta terça-feira do Senado, quando o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) concentrou as atenções do plenário ao fazer um discurso para protestar contra a interpelação judicial feita pelo PT para que ele sustente em juízo a insinuação de que as PPPs podem vir a ser usadas para favorecer empresários em troca de contribuições intermediadas pelo secretário de Finanças do partido, Delúbio Soares. “Do jeito que está, a PPP é roubalheira para o Delúbio deitar e rolar”, teria dito Tasso na semana passada em debate informal com o colega Tião Viana (PT-AC).

O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), até que foi habilidoso ao redirecionar o debate para o mérito do projeto, como veremos mais adiante, mas a disposição do PSDB para desidratar as PPPs não se abalou. Ao ser questionado pela Agência Carta Maior sobre as motivações políticas da resistência ao projeto, o líder tucano, Arthur Virgilio (AM), reconheceu: “Queremos impedir o projeto Gabão. Como está, a PPP pode gerar caixa para o PT ficar 20 anos no poder, com um projeto autoritário de cerceamento camuflado das liberdades democráticas, que pode ser pior que uma ditadura”.

Projeto Gabão é referência à brincadeira feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a recente viagem à República Dominicana. Ele disse que foi visitar o Gabão para aprender como um presidente consegue ficar 37 anos no poder – alusão a Omar Bongo, que manda no país africano desde 1967. Com os ventos favoráveis da economia, os futuristas de plantão já imaginam a linha de sucessão petista até o segundo centenário da Independência do Brasil.

E os tucanos levam a sério, pois tinham o mesmo projeto. A expressão 20 anos no poder é do falecido ministro Sergio Motta, o grande operador político do PSDB na década passada, que morreu prematuramente em 1998 por causa de uma infecção pulmonar aguda. Um projeto dessa envergadura requer mais recursos do que um partido dispõe nos intervalos entre as eleições. A suspeita de que Motta tinha um caixa paralelo para sustentar a ambição de permanecer 20 anos no poder sempre pairou sobre o governo tucano.

Ele comandou a maior privatização da história do País, a do Sistema Telebrás, defendida pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso com o mesmo ardor com que o governo petista tenta aprovar as PPPs. Houve quem desconfiasse que Sergião usava suas próprias declarações para provocar oscilações no mercado de ações, fazendo o dinheiro mudar de mãos rapidamente nos pregões da Bolsa de Valores.

Não foi por acaso que um falso dossiê sobre contas de dirigentes tucanos em paraísos fiscais incomodou a cúpula do PSDB como se existisse a possibilidade de ser verdadeiro. Esse é um fantasma que paira sobre o tucanato sempre que se menciona quebra de sigilo de contas no exterior, como agora na CPI do Banestado.

A direção das suspeitas agora está invertida. São os tucanos e pefelistas que apontam para Delúbio Soares como responsável pelo suporte financeiro do projeto petista de 20 anos no poder. Baseiam-se em um conjunto de indícios, reforçados pela imprensa, de suposto tráfico de influência do dirigente petista em benefício de empresários doadores de recursos ao partido.

A oposição reclama de campanhas petistas milionárias pelas capitais e interior do País. Teme o fortalecimento e a capilaridade do PT. E aponta para Delubio como o responsável por conseguir os recursos que estariam permitindo o alastramento do poder petista em troca de facilitar o acesso do empresariado aos centros de decisão da administração fede