Governo francês prende e extradita para Espanha ativista do Batasuna

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Publicado domingo, 4 de novembro de 2012 as 11:38, por: cdb

Aurore Martin, cidadã francesa de 33 anos, foi presa esta sexta feira nos Pirenéus Atlânticos e entregue às autoridades espanholas. O ministro do Interior do governo de François Hollande, que declarou que França irá seguir “a 100% o caminho marcado pelo governo espanhol”, tem sido alvo de críticas por parte de vários quadrantes políticos. Artigo |4 Novembro, 2012 – 16:19 Foto retirada do Diário Liberdade.

A prisão e posterior extradição para Espanha, de Aurore Martin, uma cidadã francesa de 33 anos, membro do partido independentista basco Batasuna,  surge após a entrevista do ministro do Interior francês ao El País, durante a qual o representante governamental adiantou que a França vai continuar com “firmeza” a sua luta contra a ETA, uma vez que a organização ainda não depôs as suas armas.

Durante a entrevista, Manuel Valls afirmou ainda que Paris seguirá a 100% o caminho marcado pelo governo espanhol e sugeriu que, enquanto a ETA não depuser as suas armas, não será possível cumprir as reivindicações dos partidos de Iparralde (zona Norte do país basco, em território francês) de criar uma coletividade ou estrutura administrativa basca.

Ministro do Interior de Hollande é criticado por diversos quadrantes políticos

 Jean Luc Mélenchon, líder da Frente de Esquerda, afirmou que “a extradição para Espanha da cidadã francesa Aurore Martin é um escândalo” e que “o Partido Socialista mudou de lado”.

As críticas ao ministro francês do Interior surgem de vários quadrantes políticos, inclusive dos socialistas bascos franceses. Em Itarralde, os partidos políticos emitiram um texto comum, também subscrito por três parlamentares socialistas, onde é exigido o “regresso imediato” de Aurore a “território francês”.

Anita Lopepe, membro da coligação basca EH Bai, acusa Manuel Valls de alinhar com o Partido Popular. “Exigimos o fim de todas as formas de repressão contra todos os militantes bascos”, afirmou Lopepe, frisando que a manifestação a favor dos prisioneiros bascos prevista para 10 de novembro assume agora uma importância ainda maior”.

“O que (Claude) Gueant não se atreveu a fazer, o ministro Valls ousou. Que vergonha!”, adiantou o porta voz do Partido Comunista Francês nos Pirenéus Atlânticos. “O governo Ayrault escreveu uma página vergonhosa para o nosso país”, criticou, considerando “intolerável e indigno” que uma cidadã francesa, “uma ativista de um partido autorizado em França seja extraditada por atos (…) não puníveis no nosso país”.

O vice-presidente do Conselho Geral dos Pirineus Atlânticos, Kotte Ecenarro, do Partido Socialista (PS), também lamentou uma “situação grotesca e incompreensível no processo de paz”. Max Brisson, da UMP, antecipou, por sua vez, “um mau sinal para a paz.”

Num comunicado intitulado “O que procura Manuel Valls?” o grupo Europe Ecologie-Les Verts de Aquitânia e do País Basco, parceiro do governo socialista em Paris, acusou Valls “pôs em marcha uma repressão que não se justifica no clima atual”.

O Comité para a Defesa dos Direitos Humanos do País Basco lembrou, por sua vez, que François Hollande tinha, inclusive, apoiado a candidatura de Aurore.

Por volta do meio-dia de sábado realizou-se uma concentração frente à esquadra de Maule (Zuberoa), na qual se juntaram cerca de 300 pessoas, tendo vários eleitos aderido à iniciativa, entre os quais, o autarca de Maule, Mixel Etxebest, bem como os de Gotaine, Liginaga e Aloze, diversos representantes da Zuberoako Herri Elkargoa (em francês: Communauté de communes de Soule-Xiberoa) e eleitos de outras localidades. À tarde foram promovidas concentrações em Baiona (18h30) e Donibane Garazi (19h30).

“Havia um acordo tácito que Valls [atual ministro do Interior] quebrou”

Aurore Martin foi ouvida, por volta das dez horas de sábado, pelo juiz Pablo Ruz, da Audiência Nacional espanhola, que decretou a sua prisão sem direito a fiança.

Segundo a polícia e os procuradores de Bayonne, Martin terá sido detida durante uma operação stop fortuita, tese que é refutada pelo Batasuna. Um dos líderes do partido, Jean-François Lefort, afirmou, este sábado, que o Batasuna refuta “a teoria de um controlo fortuito”. “Quando Aurore Martin foi presa existia um contingente policial significativo noutro local onde ela iria passar”. Lefort salientou ainda que o mandado de detenção europeu não foi aplicado pelo ex-ministro do Interior, Claude Gueant. “Havia um acordo tácito que Valls quebrou”. Um passo foi dado”, rematou.

Em 2013, foi emitido, pelas autoridades de Madrid, um mandato de captura contraAurore Martin, acusada de “participação numa organização terrorista”, ou seja, de participar em reuniões públicas do partido Batasuna em 2006 e 2007, em Pamplona, ??Espanha. A ativista enfrenta agora uma pena de até 12 anos de prisão.

O partido independentista basco não é ilegal em França, ao contrário do que acontece em Espanha, onde o mesmo é considerado, desde 2003, uma organização terrorista, dadas as alegadas ligações com o grupo separatista ETA.

“Não tenho ilusões, sei onde isto vai acabar e como”, declarava Aurore Martin em março de 2011. “Eu não luto por não ser presa, eu luto por não ser extraditada para Espanha. Se tal acontecer, será aberto um precedente que irá perturbar todo o sistema jurídico”.