Governo do Paquistão prende mulás mas protestos anti-americanos persistem

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Publicado segunda-feira, 8 de outubro de 2001 as 13:42, por: cdb

A enviada especial da BBC Brasil ao Paquistão, Graciela Damiano, está em Quetta – cidade próxima à fronteira com o Afeganistão e palco de manifestações contra a ofensiva militar dos EUA.

A polícia paquistanesa está controlando a movimentação da imprensa em Quetta, mas Graciela Damiano conseguiu visitar partes da cidade onde pôde acompanhar os protestos – e enviou este relato, por e-mail, apesar das dificuldades enfrentadas na cidade:

“O clima está bem tenso aqui em Quetta, capital do Baluchistão, região de maioria patane – a etnia predominante no Afeganistão e também dos membros do Talebã.

“Por isso existe muita revolta por aqui: agora de manhã foram realizadas várias manifestações pela cidade.

“Posso ver colunas pretas e brancas de fumaça. Uma agência bancária no centro da cidade foi queimada. Os manifestantes queimaram tambem pneus e latas delixo.

“A polícia conteve um protesto próximo ao Hotel Serena, onde a imprensa internacional está concentrada.

Pedrada

“A polícia não deixa a imprensa sair, mantendo um forte contingente no portão. Os muros são altos. A polícia alega que a medida é para proteger os jornalistas.

“A manifestação perto do hotel foi reprimida com gás lacrimogêneo. Eu corri com meu motorista e intérprete para um prédio de escritórios nas imediações.

“Os funcionários lá dentro estavam apavorados. Uma pedrada estilhaçou um dos vidros e todos ficaram longe das janelas.

“Recebi recomendação de nem pensar em microfone ou câmera para não colocar todo mundo em risco.

Preces

“Os manifestantes gritavam palavras de ordem contra o governo do Paquistão e os EUA, carregando pedaços de pau, enormes pedras e garrafas de água para aliviar os efeitos do gás lacrimogêneo.

“Eles usam a água para molhar um pedaço da roupa ou do turbante, para passar nos olhos afetados.

“A tensão aqui em Quetta começou por volta das 5h30m da manhã (hora local), após a primeira prece, das 5 da manhã, que os muçulmanos rezam no dia.

“Os cânticos altos enchiam o ar, ouvi batidas nas portas dos quartos e uma voz masculina chamava as pessoas, acredito, para participar dos protestos. Também ouvi um buzinaço.

Bloqueios

“O comércio baixou as portas e poucos comerciantes se atreveram a violar o protesto, com exceção de alguns lojistas próximos ao setor onde ficam os quartéis da cidade, que está mais tranqüilo e vazio.

“As forças de segurança levantaram vários bloqueios, isolando partes da cidade.

“Foi difícil chegar a esta casa onde um amigo do motorista me deixou usar o terminal do filho para acessar a internet.

“Muita gente aqui tem parentes no Afeganistão e, se mortes de civis forem confirmadas como resultado dos ataques da última noite, a situação pode ficar ainda mais difícil por aqui.

“Há notícias de que a policia teria tentado colocar vários mulás de Quetta e da cidade de Chamã sob prisão domiciliar.

“Mas os mulás de Chamã conseguiram deixar suas casas antes da chegada da polícia, assim como alguns mulás de Quetta.

Refugiados

“Também aumenta a preocupação com os refugiados que podem estar voltando a se concentrar na fronteira, na área de Chamã.

“Uma reunião foi marcada entre representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), organizações assistenciais que operam na região e representantes do governo do Paquistão.

“O objetivo da reunião é discutir as possibilidade de dar assistência aos refugiados.

“Representantes de um projeto assistencial que fornece água potável aos refugiados disseram que vão pedir ao governo que reabra a fronteira com o Afeganistão para permitir que os afegãos entre no país.”