Glauber Brito: Ha-Joon Chang, a inflação e estabilidade econômica

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Publicado segunda-feira, 12 de março de 2012 as 08:33, por: cdb

Ha-Joon Chang, um professor da Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge, escreveu um livro de economia indispensável ao público leigo – categoria à qual pertenço – ou àquele nem tão leigo assim. Trata-se de “23 things they don’t tell you about capitalism”, que se propõe a desmistificar alguns paradigmas econômicos neoliberais, dentre eles, o caráter ideológico do livre mercado.

Por Glauber Brito*

Segundo Chang, o livre mercado não existe, dado que não há como definir objetivamente o quão livre é o mercado, sendo portanto uma definição política, sujeita a interpretações subjetivas. Assim, o discurso corrente de que os liberais estão defendendo o livre mercado da interferência política dos governos é falso. Acontece que o governo está inexoravelmente envolvido no mercado e os liberais, ora, estão apenas fazendo política. Ainda segundo o autor, reconhecer que os limites do mercado são ambíguos e que não podem ser determinados de modo objetivo nos faz perceber que a economia não é uma ciência como a física ou a química, mas um exercício político.

O professor Chang tem muito a dizer aos brasileiros, especialmente no que se refere à discussão sobre o controle da inflação. Ele inicia esse tema acentuando que o discurso dos liberais toma a inflação até os anos 70 como o inimigo público número um da economia, com vários países sofrendo do mal da hiper-inflação. Segundo os liberais, mesmo quando não se atinge níveis de magnitude hiper-inflacionária, a instabilidade econômica que surge da inflação inibiria o investimento e, assim, o crescimento.

Ainda segundo eles, a inflação mundial nos anos 90 foi controlada devido ao controle mais rígido do déficit público e a introdução de bancos centrais politicamente independentes, livres para focar no controle da inflação. Assim, foi-se construindo o alicerce ideológico em que a estabilidade econômica seria necessária para o investimento de longo prazo e, portanto, para o crescimento.

Porém, Chang discorda, afirmando que a inflação pode ter sido controlada, mas a economia mundial se tornou consideravelmente mais instável durante as últimas três décadas, com várias crises, incluindo a crise financeira de 2008, de modo que o excessivo foco no controle da inflação desviou a atenção de questões importantes, como emprego e crescimento econômico. Assim, as políticas de controle da inflação trouxeram na verdade crescimento anêmico desde os anos 90, apesar da premissa liberal de que a estabilidade de preços é pré-condição do crescimento.

Desde os anos 80, economistas liberais conseguiram convencer o resto do mundo de que a estabilidade econômica, traduzida numa inflação próxima de zero, ou idealmente zero, deveria ser alcançada a todo custo. Em números, essa inflação recomendada gira em torno de 1-3%, sugerida por Stanley Fisher, professor do MIT e chefe do FMI entre 1994 e 2001. No entanto, segundo Chang, não há evidência de que a inflação seja ruim para a economia, desde que não se trate de uma hiperinflação. De fato, alguns estudos realizados por economistas liberais da Universidade de Chicago ou FMI (Roberto Barro e Michael Sarel) sugerem que uma inflação abaixo de 8-10% não tem nenhuma relação com a taxa de crescimento do país. Alguns estudos colocaram o limiar ainda mais alto: 20-40% (M. Bruno & W. Easterly).

A experiência ainda diz que uma inflação alta é perfeitamente compatível com rápido crescimento econômico. Como exemplo, Chang cita o Brasil, que durante os anos 60 e 70 tinha uma taxa média de inflação de 42%, mas era uma das economias de crescimento mais rápido do mundo, com uma renda per capita crescendo a 4,5% ao ano. Algo parecido acontecia com a Coréia do Sul, que apresentava crescimento de 7%, apesar da taxa de inflação de 20%. Por outro lado, quando o Brasil desde 1996 iniciou uma política de controle da inflação por meio do aumento da taxa real de juros – entre 10 e 12% ao ano, uma das maiores do mundo – a inflação caiu para 7,1%, porém o crescimento econômico também sofreu, causando um crescimento da renda per capita de apenas 1,3% ao ano.

De acordo com um estudo do FMI, a taxa média de inflação caiu em 97 dos 162 países pesquisados entre 1990 e 2008, em comparação com as taxas dos anos 70 e 80. A luta contra a inflação obteve sucesso particularmente nos países ricos, caindo em todos eles. Nos países da OCDE, a taxa caiu de 7,9% para 2,6% no mesmo período. No entanto, apesar do controle inflacionário, o mundo se tornou economicamente mais instável.

De acordo com um estudo de Kenneth Rogoff, antigo economista chefe do FMI e atualmente professor da Universidade de Maryland, virtualmente nenhum país estava em crise bancária entre o fim da Segunda Guerra e meados dos anos 70. Entre meados dos anos 70 e final dos 80, quando a inflação acelerou em muitos países, a proporção de países com crises bancárias aumentou para 5-10%, ponderada pela parcela da renda mundial, aparentemente confirmando a visão centrada no controle da inflação. Porém, esse número saltou para 20% nos anos 90, quando a inflação foi controlada, e para 35% após a crise global de 2008.

O mundo nas últimas três décadas também se tornou mais instável se considerarmos a estabilidade do emprego. Nos países ricos, a insegurança do trabalho aumentou nos anos 80, relativamente aos anos 50-70, em grande parte devido ao controle inflexível da inflação. Dentre os indicadores de insegurança do trabalho, Chang destaca, primeiro, o fato de que a parcela de empregos de meio período aumentou na maioria dos países ricos. Segundo, em alguns países uma maior proporção das demissões se tornou involuntária, especialmente nos EUA. Terceiro, especialmente nos EUA e Reino Unido, categorias profissionais consideradas portos seguros se tornaram inseguras desde os anos 90. Por último, em muitos países ricos houve um corte acentuado da rede de amparo social, o “welfare state”, desde os anos 80.

Por fim, Chang comenta que o pacote de políticas neoliberais enfatiza menor inflação, maior mobilidade de capital e maior insegurança no trabalho (eufemisticamente chamada de flexibilidade do mercado de trabalho), essencialmente porque satisfaz os interesses dos que possuem ativos financeiros. A inflação é destacada porque os juros de muitos desses ativos são nominalmente fixados, de modo que a inflação reduz o ganho real desses investimentos. A maior mobilidade de capital é promovida porque, do ponto de vista dos investidores financeiros, isso permite mover o capital para onde ele rende mais. Ou seja, o controle da inflação faz parte desse pacote de medidas econômicas neoliberais e tem por objetivo beneficiar financistas ao custo do crescimento econômico e felicidade humana.

*Glauber Brito é colunista.

Fonte: Blog do Nassif

 

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