Gil defende maior participação dos negros no cinema nacional

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sexta-feira, 14 de novembro de 2003 as 00:13, por: cdb

Em São Paulo para um seminário na Universidade de São Paulo, esta tarde, o ministro Gilberto Gil defendeu uma maior participação dos negros no cinema nacional.
 
– Cabe aos criadores negros aproveitar esse momento e transformá-lo não em moda passageira, mas em realizações constantes e bem fundamentadas, procurando retratar, quem sabe, não o negro extraordinário, não o negro com o pandeiro na mão, com a bola no pé ou com a AR-15 no ombro, mas o negro comum, o negro cidadão, que ama e sofre, que trabalha e sonha, que se afirma sobre a adversidade. Há um limite para o cineasta branco, por mais crítico e bem-intencionado que seja – discursou.

Depois do seminário na USP, Gil foi a uma sessão de autógrafos no saguão do Aeroporto de Congonhas, lançando o livro ‘Gil 60 – Todas as Contas’, de Bené Fonteles. Deu autógrafos e posou para fotos, encontrando ‘por acaso’ a filha cantora estreante, Preta Gil.
 
– Flora me disse que ela estaria por aqui, mas eu não esperava que fosse bem aqui – brincou.
O ministro também mostrou impaciência com as questões do financiamento cultural no País.
 
– Cultura não pode mais ser vista como o vaso de flores que adorna os salões do poder. Cultura é matéria de segurança nacional, objeto de primeira necessidade, item da cesta básica de um Estado e de uma sociedade que se respeitam. Cultura merece o tratamento de assunto de Estado, muito mais do que assunto de Ministério – disse.

Falando sobre seu primeiro ano no ministério, Gil disse que sua pasta ainda enfrenta ‘problemas muito conhecidos por todos’, e o principal deles é a falta de recursos.
 
– Enfrentamos uma máquina titubeante, arredia a qualquer grupo negro, refratária aos grupos representados por negros, e também trabalhadores inexperientes – disse.

Ainda assim, ponderou, tem havido avanços importantes, e parte disso ele credita ao seu apelo pessoal.
 
– O ministro é um ícone da arte popular do Brasil, e isso carreia para o ministério uma visibilidade natural – falou.

Ele comentou as saídas do governo do deputado Fernando Gabeira e de Oded Grajew.
 
– É assim mesmo. Um grupo chega ao poder com expectativas, e o PT chegou ao poder com expectativas ainda maiores que outros governos anteriores. Um ano depois, tem um desgaste natural, além de uma tentativa de reorganização. E agora ainda tem a reforma ministerial – afirmou.

O ministro falou de dado do IBGE, no estudo revelado essa semana, que revela que apenas 8% das cidades brasileiras têm salas de cinema. Disse que a inauguração de centros culturais do governo federal nas periferias das cidades vão ajudar a mudar a situação, com salas multiuso para cinema e teatro. Mas que essa é uma questão ainda a ser equacionada no governo Lula.

Gil defendeu que os negros e mestiços brasileiros ‘qualifiquem’ sua representação no cinema nacional, mas negou que isso seja também a defesa de uma cota de tela exclusiva para diretores e atores negros. Disse que a cinematografia brasileira dá espaço, em filmes como ‘Cidade de Deus’, ‘Uma Onda no Ar’, ‘Aurélia Schwarzenêga’, ‘Carandiru’ e em seriados como ‘Turma do Guet’o e ‘Cidade dos Homens’.
 
– A questão é saber se estamos apenas diante de uma necessidade de incorporação, pelo mercado, de um contingente maior de consumidores… Ou se há algo mais no ar – ponderou.