Gel da Unicamp pode ser arma contra HIV

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Publicado segunda-feira, 16 de dezembro de 2002 as 00:28, por: cdb

Um gel amarelado, opaco, sem cheiro, de fácil aplicação e que, sem contabilizar o custo de sua embalagem, poderá ser adquirido por centavos.

Esse produto, testado e produzido pela primeira vez no país pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), pode se transformar na nova arma da medicina no combate à redução do risco de transmissão do vírus HIV e também de outras DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis). O gel ainda é usado como anticoncepcional.

Diferentemente de espermicidas já comercializados no mercado, o Acidform não provoca irritação vaginal.

O composto tem ainda o poder de atuar no controle da vaginose bacteriana _frequentes corrimentos em mulheres.

O gel teve sua fórmula elaborada em 96 pela Rush University, de Chicago (EUA), foi fabricado na Unicamp e é testado pela universidade desde 98, com o apoio financeiro da instituição de pesquisa norte-americana Conrad.

Com o sucesso do processo clínico realizado em Campinas, a eficiência do Acidform será testada na África, em 2003.

Números da ONU (Organização das Nações Unidas), computados em 2001, apontam que mais de 8,1 milhões de pessoas estão contaminadas pelo vírus da AIDS no continente africano. No Brasil, o número de pessoas contaminadas pelo vírus HIV era de 597 mil no ano passado.

“Para provar que é eficaz em uma população contaminada pelo vírus HIV, o Acidform precisa ser estudado por muito tempo. Essa é a terceira fase da pesquisa. Na Unicamp, foram feitos os testes clínicos”, disse Eliana Amaral, professora do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e responsável pela pesquisa.

Se comprovadas a eficácia e a segurança do gel no que os pesquisadores chamam de teste de fase três, o Acidform pode começar a ser comercializado, no mínimo, em 2007, segundo Amaral.

Com uma fórmula ácida, o gel deixa o pH da vagina baixo, fazendo com que espermatozóides e micróbios morram no colo do útero em um período de até dez horas após sua aplicação.

Na primeira fase da pesquisa, o Acidform foi aplicado por seis dias seguidos em 18 mulheres sadias. “O gel apresentou uma tolerância muito boa na vagina”, explica a pesquisadora.

Em uma segunda etapa, 20 casais sadios _com mulheres que não corriam risco de ficar grávidas_ tiveram relações sexuais utilizando o gel, por quatro ciclos menstruais das mulheres (quase quatro meses).

No primeiro ciclo, os casais tiveram relações sem o gel. Na sequência, as aplicações do Acidform foram feitas no momento ou até duas horas antes da relação. O gel também foi testado com a aplicação sendo feita de oito a dez horas antes da relação.

Resultado: as condições da vagina não sofreram alterações e os espermatozóides foram mortos nos três ciclos, segundo Amaral.

Ainda conforme a responsável pela pesquisa, os casais também utilizaram o Nonoxinol-9, espermicida já comercializado, durante os estudos feitos na Unicamp. O Acidform não provocou na vagina reações menores, iguais ou maiores que o Nonoxinol-9.

“Pelo que nós analisamos, o Acidform dá segurança para ser um agente de prevenção promissor e é um dos produtos atualmente pesquisados com perspectivas de superar as próximas fases de análise”, disse a pesquisadora.