Futuro incerto de Cunha abre corrida à Presidência da Câmara

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Publicado sábado, 17 de outubro de 2015 as 16:47, por: cdb

Por Redação – de Brasília

A saraivada de denúncias contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, nas últimas 48 horas, abriu a corrida ao terceiro cargo mais importante na República. Embora Cunha insista em não renunciar, mesmo depois de revelados detalhes capitais sobre suas contas milionárias na Suíça, líderes partidários passaram a articular, abertamente, nomes que o possam suceder.

Cunha
Cunha tem tentado, de todas as maneiras, reunir apoio para permanecer no cargo

Líderes do governo, da oposição e até do próprio PMDB, partido de Cunha, começam a desenhar o perfil de um sucessor para o deputado, capaz de substituí-lo caso renuncie ou tenha o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar, ao ocultar patrimônio e de receber propina no esquema de corrupção da Petrobras. Parlamentares acreditam que, mesmo com a perda de apoio público, o parlamentar terá influência na escolha do sucessor. Um deles lembra que Cunha, em contato com empresários, ajudou a financiar a campanha de muitos aliados.

Em linha com esse raciocínio, o jornalista Jânio de Freitas, colunista do diário conservador paulistano Folha de S. Paulo, em recente artigo publicado, afirma que “a situação pessoal embaraçosa, com o presumido risco de perder milhões de dólares resguardados no exterior, deve ter mexido com a frieza de Eduardo Cunha. Mas Eduardo Cunha exagera, supondo-se ‘execrado’. Muito ao contrário. Eduardo Cunha não está sozinho, não foi abandonado por causa de acusações. E tanto conta com fraternidades espontâneas, como dispõe de armas para produzir interessados em não o incomodar. Ou só fazê-lo em último desespero de causa”.

Ainda segundo Freitas, “a verdadeira atitude do PSDB, (…) de benevolência quando as provas contra Eduardo Cunha já levam a pedidos de sua cassação, provém de duas vertentes. Os taradinhos do impeachment preservam o presidente da Câmara porque esperam dele que instale a ação para a derrubada de Dilma e não têm pudor de dizê-lo. Aécio Neves não foi sugerir a Eduardo Cunha que se licenciasse coisa nenhuma, se nem disfarçou o desejo de que seja poupado para encaminhar o processo. O ‘aquilo’ em que esses taradinhos só pensam não é aquilo, é o impeachment“.

Patrimônio escondido

Além de ocultar patrimônio na Suíça e nos EUA, como aponta a denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, Cunha é apontado na denúncia como dono de uma frota de nove carros de luxo avaliada em R$ 940 mil. Um de seus carros, um Porsche Cayenne S, de 2013, avaliado em R$ 429 mil, foi registrado em uma de suas empresas, chamada Jesus.com. O deputado é evangélico e a empresa tem como função fazer propagandas e programas de rádio.

Um dos automóveis de luxo na frota de Cunha é um SUV Ford Edge V6, usado pelo serviço de inteligência dos EUA
Um dos carros na frota de Cunha é um Ford Edge V6, usado pelo serviço de inteligência dos EUA

O restante da frota conta, ainda, com um SUV Ford Edge V6, um Ford Fusion, também registrados no nome da empresa Jesus.com, além de uma BMW e outros carros vinculados a outra empresa, a C3 Produções, e no nome de sua esposa, a jornalista Cláudia Cruz. Na declaração de bens à Justiça Eleitoral, Cunha disse possuir apenas um Corolla, ano 2007, avaliado em R$ 60 mil. A Procuradoria Geral da República estima que Cunha seja dono de um patrimônio não declarado de R$ 60,8 milhões.

Cunha, no entanto, não teria agido sozinho. Altair Alves Pinto, de 67 anos, aparece como cúmplice do presidente da Câmara em atos ilícitos cometidos ao longo da última década. Embora não haja vínculo social entre eles, Altair é apontado como motorista de Cunha a intermediário na compra e venda do atual gabinete parlamentar do deputado no Rio. Em 2003, segundo dados vazados ao diário conservador carioca O Globo, “Altair comprou em leilões três salas do Serviço Social da Indústria (Sesi) no edifício De Paoli, Centro do Rio. Um ano depois, as revendeu pelo mesmo preço de aquisição para Cunha. Três anos antes, ele estava junto com o peemedebista no carro alvejado por ladrões na região central do Rio numa tentativa de assalto”.

Nesta sexta-feira, segundo o jornal “Cunha usou carro em nome de Altair para ir a um encontro com prefeitos no Rio. O colaborador do peemedebista é apontado por políticos como uma espécie de ‘faz tudo’ do deputado. Altair foi citado pelo lobista conhecido como Fernando Baiano como sendo o responsável por receber entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão em 2011. A entrega ocorreu, segundo o relato, na sala da qual ele já foi dono, e atualmente é usada como gabinete de Cunha”.

Alem de Altair, o operador usado para abrir as contas de Eduardo Cunha na Suíça o nome de Luís Maria Pineyrua Pittaluga aparece nas investigações como o elo de conexão entre o dinheiro movimentado no exterior pelo presidente da Câmara dos Deputados e o escândalo da Lava-Jato. Pittaluga, que criou para Cunha uma empresa de fachada em Cingapura, se apresenta como representante do escritório uruguaio Posadas & Vecino Consultores. O escritório funciona na Rua Juncal 1305, 21º andar, em Montevidéu, como apuraram os investigadores. Trata-se do mesmo endereço declarado como sede da Hayley S/A, investigada na Lava-Jato por receber propina pela intermediação de contratos de fornecimento de sondas de perfuração da coreana Samsung à área internacional da Petrobras.

Empresa de fachada

Documentos divulgados, na véspera, pela Folha de S.Paulo, revelaram que a principal conta atribuída a Cunha na Suíça foi aberta com ajuda de Luis Pittaluga. Ele assina documentos como diretor da PVCI New Zealand Trust, da Nova Zelândia. Esta empresa criou a Netherton Investments, offshore de Cingapura que serviu de fachada para o presidente da Câmara abrir a conta europeia.

A Hayley seria presidida pela advogada brasileira Christina Maria da Silva Jorge. Em 23 de setembro de 2013, segundo a denúncia contra Cunha, Christina assinou uma procuração ampla para José Reginaldo da Costa Filpi, para representar a sociedade junto à Receita Federal no Brasil. Christina e Filpi são sócios em escritório de advocacia no Centro do Rio. Investigações concluíram que os dois administram um negócio que oferece serviços de administração de empresas nas áreas jurídica, contábil e legal.

— Para esse fim, Filpi e seus colaboradores terceirizam serviços tanto no Brasil quanto em outros países, como o Uruguai e o Panamá — relatou um investigador da Lava-Jato a jornalistas.

A empresa uruguaia tem uma filial brasileira, a Hayley Empreendimentos e Participações, cuja sede é a mesma do escritório de Filpi, no Centro do Rio. Esta empresa comprou duas salas comerciais na Rua da Assembleia, 10. A partir de janeiro de 2013, passou a funcionar no local a D3TM, consultoria que Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras, montou após deixar a estatal. Em novembro, a Hayley transferiu as duas salas para a D3TM. Na papelada, consta que a transação foi feita por R$ 770 mil.

Segundo os investigadores, o dono do campo de petróleo em Benin, Idalécio de Oliveira, recebeu US$ 34,5 milhões da Petrobras pelo negócio. Idalécio repassou US$ 10 milhões a Henriques. O lobista, então, teria distribuído a propina. Os procuradores dizem que 1,3 milhão de francos suíços foram para uma das contas de Cunha na Suíça em cinco repasses em menos de um mês.