Furou, o futuro do Brasil?

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Publicado terça-feira, 26 de maio de 2015 as 17:00, por: cdb
Colunista perde esperança diante da transformação por que passou a geração revolucionária
Colunista perde esperança diante da transformação por que passou a geração revolucionária

Será que Stefan Zweig se matou depois de ver o fora que tinha dado chamando o Brasil, de “país do futuro?” Pra onde foi ele, o futuro do Brasil?

Nasci com uma noção definida de justiça e ficava confusa quando presenciava qualquer tipo de ato que a contrariasse. E foram muitos que presenciei desde pequena: os “moleques” do morro apanhando do jardineiro por que eram moleques e do morro, injustiça das freiras no colégio, cometidas contra as meninas pobres que serviam as ricas ou as meninas judias que a gente chamava, pejorativamente, de “judéias”, sem ter ideia, naturalmente, do que isso significava, até a tortura no Brasil.

Presente às passeatas, em 68, eu achava que o Brasil tinha jeito. Meu namorado, líder estudantil, na época, vivia me dizendo: “Espera a gente tomar o Poder.. É claro que eu achava aquilo impossível, uma rapaziada de vinte anos com o Poder na mão. A geração 68, o mesmo “elenco” das passeatas, gritando, orgulhoso, em uníssono no Governo: “O povo unido jamais será vencido!”

Achava a minha geração o máximo: revolucionária na política, nos costumes, na vida. Então, depois de 34 anos eles tomaram o Poder, de verdade, não na marra, mas no voto, o que era uma coisa extraordinária.

Mas agora, ando tão decepcionada com os fatos, que fico pensando que deveríamos ter tomado o Poder , aos vinte anos, quando éramos heróis intolerantes. Será que, como dizia Belchior, :“eles venceram e o sinal está fechado pra nós?” Mas “eles’, quem, cara pálida ? O Poder agora não deveria ser nosso? Infelizmente acho que nós nunca seremos nós, e que “eles” são uma espécie de entidade do Mal, tipo um Exú, que no lugar da Liberdade sempre abriu as asas sobre nós, seja sob a forma de Imperialismo, Globalização ou outro apelido mais moderno que sempre nos impede de sermos nós?

Por que se fosse a verdadeira ideologia de 68, quer dizer, se fossemos” nós” que estivéssemos no Poder, por que é que se estaria roubando alucinadamente no país inteiro, sempre prometendo despir um santo pra vestir um outro que nunca se veste? Com que direito demitem funcionários, deixando-os sem transporte, sem comida, sem escola, sem saúde,sem trabalho? Por que será que nada em favor da classe média, dos pobres, dos idosos, do povo sai dos papéis? Seria ele, o povo, um outro tipo de entidade abstrata que não é de carne e osso mas de papel?

Será que a geração 68 foi mesmo um sonho e que o destino dos sonhos é não se realizar jamais? Teria sido melhor ter feito lobby, puxado o tapete de todo mundo pra se tornar celebridade e ficar de turista na vida, achando que o Brasil não tem jeito?

Será que foi isso que sobrou pra nós, que amávamos tanto a revolução?

Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins