Funai quer punição para assassinos de índios no Brasil

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Publicado segunda-feira, 13 de janeiro de 2003 as 17:15, por: cdb

Uma semana após o assassinato do índio caingangue Leopoldo Crespo, de 77 anos, praticado por três jovens na cidade de Miraguaí, no noroeste do Rio Grande do Sul, o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Arthur Nobre Mendes, divulgou uma nota, nesta segunda-feira, pedindo Justiça para todos os casos de violência contra indígenas no país.

Os três jovens, sendo um deles menor, mataram o índio com pontapés e pedras na noite de 6 de janeiro, enquanto a vítima dormia em uma calçada. Presos, eles confessaram que queriam se divertir e assustar Crespo com “coices”.

A seguir, a nota do presidente da Funai:

“É lamentável que o ano de 2003 esteja se iniciando com a morte brutal de indígenas em dois pólos do Brasil, no Rio Grande do Sul e Roraima. No município de Redentora, no estado gaúcho, a comunidade caingangue sofre com o assassinato do índio Leopoldo Crespo, de 77 anos, executado por dois rapazes de 19 anos e um menor, de 14.

Com chutes, pontapés e pedradas um dos mais idosos indígenas da Aldeia Estiva, da Reserva de Guarita, foi atingido pela covardia enquanto dormia na calçada do município de Miraguaí, a seis quilômetros da aldeia, onde fora receber a aposentadoria. Um dos jovens agressores já fora identificado por esfaquear outro indígena, na noite do último Natal, próximo à rodoviária de Miraguaí.

O fato traz à tona o brutal assassinato do índio Galdino Jesus dos Santos, ocorrido em Brasília em 1997 enquanto também dormia em uma parada de ônibus. Os jovens assassinos, de classe média, mataram o indígena incendiando o corpo com álcool, acendendo ao mesmo tempo a indignação da etnia Pataxó, que exigiu Justiça ao crime. O mesmo sentimento invade o coração da comunidade caingangue, que quer punição aos responsáveis pela execução de Leopoldo Crespo.

Em Roraima foi encontrado, nesta última quinta-feira, o corpo do índio Aldo da Silva Mota, de 52 anos, enterrado no terreno de uma fazenda no interior da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Pai de nove filhos, Aldo era o responsável por conduzir os projetos de criação de gado da comunidade Macuxi na Terra Indígena.

Em 02 de janeiro o índio Macuxi foi chamado à fazenda sob a alegação de que uma rês do rebanho havia invadido a área, e desapareceu. Foi encontrado pelos próprios indígenas em cova rasa no imóvel após a visão do corpo enterrado obtida em transe pelo pajé da etnia. A polícia deteve os principais suspeitos e o Ministério Público já encaminha o pedido de prisão preventiva à Justiça Federal.

Seja para o crime motivado pela falta de sentido e valorização da vida, e covardia contra um idoso sem forças para a defesa, no caso do Rio Grande do Sul, seja para a execução premeditada motivada pelos interesses fundiários no caso dos invasores de Terra Indígena no estado de Roraima a Funai clama por Justiça. A mesma que, interpelada pelo Ministério Público, atuou na condenação dos jovens assassinos do pataxó Galdino Jesus dos Santos, e tem reconhecido o direito constitucional originário dos índios às terras. Que os culpados sejam punidos. E os parentes confortados”, diz a nota.