Frei Betto: “Este Governo é cada um de nós”

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Publicado quarta-feira, 9 de abril de 2003 as 09:53, por: cdb

Dirigindo-se a cerca de mil pessoas na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, na noite desta terça-feira, Frei Betto, coordenador de mobilização social do Programa Fome Zero, terminou alertando a todos para duas premissas importantes para se entender o Governo Lula.

“Primeiro, nós ganhamos uma eleição, nós não fizemos uma revolução. É preciso ter clareza disso. Não crie expectativas revolucionárias em cima de um processo eleitoral que respeita as regras do jogo democrático burguês. E nunca se falou nem no PT, nem na campanha que não se respeitariam essas regras, até porque a conjuntura revela que não há outro caminho para chegarmos a administrar esse país. Segunda premissa, nós chegamos ao Governo, não chegamos ao poder. Isso está muito claro. Poder é aquele que existe acima de todos nós, que é o capital financeiro, que é o FMI, que são esses senhores da guerra. Poder são aqueles que promoveram um desarranjo na Argentina e na Venezuela”, explicou.

Segundo Frei Betto, fora dessas premissas “nós todos seremos induzidos por aqueles que querem ver o circo pegar fogo”. Ele explica que o Governo Lula está consciente dessas diferenças e, por isso, age com cautela na política econômica. “De nada vale ‘chutar o pau da barraca’ e depois ‘ficar com o dedo na boca’, vendo ‘o circo pegar fogo’. A gente levou muitos anos para chegar aonde chegou. Agora a gente tem que aprofundar as propostas de uma maneira responsável, prudente e decidida. Ou seja, não há nenhuma dúvida de que as promessas de campanha serão rigorosamente cumpridas, mas há uma questão de governabilidade, tem que passar pelo Congresso e pelo outro pólo de poder, esse, sim, a base de sustentação de toda a governabilidade: os movimentos sociais, ou seja, vocês”, alertou.

Frei Betto admoestou, ainda, que se tomasse muito cuidado com a cultura brasileira de se ficar olhando para o Governo como se dele fosse “chover o maná”. “Nós, que tanto lutamos, que tanto sofremos, que tanto arriscamos, que tanto vencemos o medo e colocamos a esperança na pauta, temos que tomar consciência de que nós somos este Governo, que este Governo é cada um de nós, ou nós não vamos assegurar a governabilidade capaz de produzir as mudanças necessárias”, insistiu.

Ao final de sua explanação, onde voltou a explicar, de forma didática, tal qual já fizera pela manhã no Colégio Marista Cearense, sobre o programa Fome Zero, Frei Betto respondeu, pacientemente, a indagações, dúvidas, angústias e até a algumas provocações colocadas pelo público. Ele deixou claro que o governo não vai suspender o pagamento devido ao FMI.

“Eu aprendi na militância que nem sempre o desejável é possível. Eu venho de uma experiência, da qual eu tenho muito orgulho, mas que me deu muitas lições: a Luta Armada. Eu participei da Luta Armada durante a Ditadura e, naquela época, nós tínhamos tudo, nós tínhamos coragem, quero lembrar aqui Frei Tito de Alencar Lima, mártir cearense, que foi trucidado na tortura, em função dessa coragem e dessa dedicação. Portanto, nós tínhamos coragem, nós tínhamos armas, nós tínhamos dinheiro, nós tínhamos ideologia, nós só não tínhamos um detalhe: apoio popular. Esse detalhe era tudo e por isso nós fomos derrotados”, esclareceu.

Frei Betto foi enfático ao dizer que um Governo eleito na legalidade burguesa precisa cumprir as regras do jogo democrático. Segundo ele, a conjuntura internacional não comporta mais a via revolucionária. “A experiência da Nicarágua comprovou isso e foi a última tentativa com relativo êxito no Continente”, lembrou.

Ele insistiu em explicar que o Movimento Social vem fazendo um trabalho de base nos últimos 40 anos, e que a esquerda tradicional brasileira custou a aprender com ele, pois mudança se faz pelo trabalho de base e não com luta armada. “Chutar o pau da barraca, pode ser muito bom para o nosso romantismo revolucionário, mas é inviável do ponto de vista do acúmulo de forças que nós temos que fazer para melhorar esse país”, disse.