Fraturas da terra e queda do céu

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Publicado segunda-feira, 22 de outubro de 2012 as 09:16, por: cdb

Depois dos avanços sobre a camada pré-sal, chegou a vez do “fraturamento hidráulico”, que pretende retirar o gás a mais de 1,5 mil metros de profundidade        

22/10/2012

Silvio Mieli 

 

Depois dos avanços sobre a camada pré-sal para extração do petróleo, chegou a vez do “fraturamento hidráulico”, que pretende retirar o gás a mais de 1,5 mil metros de profundidade.               

A técnica, que causou terremotos e contaminações em lençóis freáticos nos EUA e na Europa, chega agora ao Brasil para tentar colocar o país entre os dez maiores produtores de gás natural. Segundo o cronograma da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o método será testado nos próximos meses nas bacias sedimentares do Vale do Parnaíba (MG), Parecis (MT) e Recôncavo (BA), zonas de exploração das empresas Shell, Petra e Fortress Energy.                

O “fraturamento” consiste numa perfuração na rocha a mais de 1,5 mil metros do subsolo, seguida de pequenas explosões que rompem horizontalmente a zona rochosa (conhecida por xisto) em múltiplos pontos. Em seguida injeta-se água, areia e soluções químicas sob altíssima pressão, para ampliar as fendas onde o gás será acumulado. A água é bombeada e depois de 3 a 5 meses o gás pode ser extraído.      

Há séculos não ocorriam terremotos na Pianura Padana, região da Emilia Romagna, na Itália. Em maio último a terra tremeu numa magnitude de 6 graus na escala Richter. Um detalhe: essa região italiana está sendo submetida a vários “fraturamentos” para extração de gás. O sismólogo Leonardo Seeber, da Universidade de Columbia, não tem dúvidas de que essas novas técnicas de engenharia hidráulica podem alterar o estado mecânico da crosta terrestre no sentido de anteciparem um terremoto que sem a intervenção humana acabaria ocorrendo mais tarde.       

Há vinte anos, durante a luta pela assinatura do decreto de demarcação das terras yanomami, o xamã Davi Kopenawa alertou para o perigo de se mexer nas camadas inferiores do subsolo. Kopenawa usou um mito para explicar que Omamë, o criador da humanidade Yanomami, escondeu várias substâncias embaixo da terra, e proibiu os índios de procurá-las. Retirar o que está nas profundezas libertaria a Xawara, ou seja, as epidemias e desgraças que se abatiam sobre o povo yanomami (como por exemplo, o sarampo). Remexer no que está em baixo da terra provoca a queda do céu sobre as cabeças de índios e brancos. A aflição de Kopenawa se atualiza, já que mais uma vez temos a confirmação de que, como diz o mito, “os brancos não sabem segurar o céu em seu lugar”.

 

Artigo originalmente publicado na edição impressa 503 do Brasil de Fato