Fome Zero ainda não começou a distribuir alimentos arrecadados

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Publicado terça-feira, 11 de março de 2003 as 14:51, por: cdb

Nenhum centavo ou grama de alimento doado até agora ao projeto Fome Zero serviu para alimentar um único brasileiro carente.

Passados 2 meses e 11 dias da posse do novo governo e da criação do Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar, batizado de Mesa, cheques como o de R$ 50 mil da modelo Gisele Bündchen continuam na gaveta à espera do número de uma conta em que possa ser depositado.

As cooperativas agrícolas juntaram 4 milhões de quilos de grãos, leite, café e farinha para o Fome Zero, mas até há poucos dias não tinham nem local para entregar a mercadoria. Depois de muita pressão, conseguiram um acordo com o ministro José Graziano, pelo qual na segunda quinzena deste mês vão entregar os estoques à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Mas as cooperativas não estão contentes, pois queriam fazer do ato de doação um grande acontecimento, se não na presença do presidente Lula, pelo menos na de Graziano. O ministro alegou problemas em sua agenda e até agora não deu a garantia de que vai pessoalmente acompanhar a entrega.

Os dirigentes de cooperativas continuam tentando convencer o presidente a prestigiá-las. Conta um de seus dirigentes que, ao procurar o ministro para saber onde deveriam depositar os alimentos, Graziano teria sugerido que entregassem a mercadoria nos acampamentos do MST. Os cooperativistas reclamaram. Afinal, muitos dos assentamentos foram feitos em cima de terras que a eles pertenceram.

No Ministério da Segurança Alimentar, a informação é de que não adianta procurar a pasta, porque ainda não há como fazer a doação do dinheiro para o Fome Zero. “A conta será aberta, mas a data ainda não pode ser informada. Só podemos dizer que será nas próximas semanas”, informou um assessor de Graziano.

Gisele Bündchen decidiu entregar parte de seu cachê por um desfile em São Paulo para o Fome Zero, logo que tomou conhecimento do lançamento do programa de Lula. Órgãos do governo federal seguiram o mesmo caminho. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) decidiu doar todo o dinheiro arrecadado durante todo o dia 22 de fevereiro em 20 de seus 52 parques naturais para o Fome Zero. Arrecadou R$ 47.416,80. Não tem como entregar o dinheiro.

Ibama

O próprio presidente do Ibama, Marcus Barros, anunciou com muito orgulho no fim de fevereiro o valor arrecadado nos parques. Contou ainda que no dia destinado ao Fome Zero, cumpriu extensa agenda no Parque Nacional de Foz do Iguaçu, onde no início da manhã desta terça-feira recebeu visitantes na portaria.

Das 8 horas às 10h30h, Barros fez um sobrevôo de helicóptero no parque e finalizou a manhã com uma visita às cataratas. O período da tarde foi reservado para uma caminhada na Trilha do Macuco e um passeio de barco, também às cataratas. No total, só o Parque do Iguaçu arrecadou naquele sábado R$ 32.161,80 para o Fome Zero.

Como não é fácil fazer doações para o programa, os petitas vêm procurando alternativas. Ontem mesmo (segunda-feira) o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues (PT), criou seu programa de segurança alimentar. E recebeu da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, quase 6 toneladas de palmito em conserva extraído ilegalmente em açaizais na Ilha do Marajó (PA). O produto foi apreendido pelo Ibama em maio do ano passado e, agora, será distribuído a famílias carentes por intermédio do Programa Fome Zero – só que o da prefeitura de Belém e não o do governo federal.