Filho cuida do legado do muralista mexicano Clemente Orozco

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Publicado terça-feira, 6 de maio de 2003 as 14:26, por: cdb

Clemente Orozco Valladares se queixa de ser pobre, mas vive cercado de milhões de dólares pendurados nas paredes de sua casa de classe média na cidade mexicana de Guadalajara.

“Sou o pobre mais rico do mundo”, explica, sorrindo, o excêntrico primogênito do muralista mexicano José Clemente Orozco.

As paredes de sua casa não têm espaço suficiente para as cerca de 300 telas que herdou de seu pai, algumas das quais nunca foram expostas em nenhum lugar do mundo.

Orozco Valladares gosta de lembrar de seu pai, um dos chamados “três grandes” muralistas mexicanos do século 20, ao lado de David Alfaro Siqueiros e de Diego Rivera.

– Orozco é universal, é isso que é interessante. É o único pintor que transcende com sua arte … ele era uma rara combinação de pintor e filósofo -, disse Clemente.

Na sala, ao lado de vasilhas pré-hispânicas, antiguidades, esculturas, fósseis e móveis brancos, ganha destaque um quadro da série “Los Teules”, que seu pai pintou em 1947, um retrato de um arlequim intitulado “Payasada” e um esboço de um braço e costas destinados a perpetuar-se nos murais.

– Não houve mais de três pessoas que compreenderam o gênio de meu pai, uma delas eu mesmo -, disse Clemente, que vive com sua esposa, um cachorro, um gato e dezenas de pássaros que ficam num viveiro em seu jardim.

O “AZAR” DE OROZCO

O muralista Orozco nasceu em 23 de novembro de 1883 em Zapotlán, no Estado ocidental de Jalisco, e, para seu filho, foi isso o grande azar de sua vida.

– Ele era um homem que se adiantou a seu tempo. Mas seu grande azar foi ter nascido mexicano. Se tivesse sido europeu, teria sido apreciado pelo que era -, diz o filho.

Clemente disse que a obra de seu pai não foi devidamente valorizada no México e que, com o passar dos anos, o governo foi descuidando dos locais onde seus murais foram pintados.

A pintura monumental de Orozco – que viveu na época da Revolução Mexicana e, à distância, das duas guerras mundiais – já foi comparada à do renascentista Giotto e sua visão com a do pintor e poeta britânico William Blake.

Suas obras adornam a Casa dos Azulejos e o Palácio de Belas Artes, na Cidade do México, o Hospício Cabañas e o Palácio do Governo, em Jalisco, e outros edifícios em Guadalajara.

Nos EUA, Orozco deixou sua pintura no Pomona College, na Califórnia, na New School for Social Research, em Nova York, e no Darmouth College, em New Hampshire.

DISTANTE DA BOEMIA

Orozco estudou topografia e planejava ser arquiteto, mas teve que abandonar essa idéia depois de um acidente em que perdeu a mão esquerda.

Segundo seu filho, ele nunca se queixou do acidente, dizendo que isto lhe deu a chance de descobrir que sua verdadeira vocação era a pintura.

Diferentemente de seus contemporâneos, que gostavam da boemia e não hesitavam em expressar sua ideologia comunista, Orozco foi, na opinião de seu filho, um homem reservado, disciplinado e familiar.

“Ele nunca nos falava a favor ou contra a religião ou a política”, recordou Clemente, que foi noivo de Guadalupe, filha de Diego Rivera e Guadalupe Marín, a primeira esposa do pintor, antes da célebre Frida Kahlo.

O filho do muralista se irritou com essas lembranças, e ele afirmou que Rivera talvez seja mais conhecido do que seu pai porque agradava aos críticos e pintores com suas piadas e histórias, mais do que com sua pintura.

De acordo com a casa de leilões Christie’s, de Nova York, o preço mais alto já pago por uma tela de Orozco foi 374 mil dólares, sendo que o recorde para um quadro de Rivera chegou a cerca de 3 milhões de dólares.