Filha lembra os 90 anos do poetinha

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Publicado domingo, 19 de outubro de 2003 as 17:56, por: cdb

Quem nunca cantarolou os versos “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça / É ela menina que vem e que passa / Num doce balanço a caminho do mar…” ou então “Eu sei que vou te amar / Por toda a minha vida, eu vou te amar / Em cada despedida, eu vou te amar…”, ou até mesmo os temas infantis “Lá vem o pato pata aqui, pata acolá / Lá vem o pato para ver o que é que há…” e “Era uma casa muito engraçada / Não tinha teto não tinha nada”?

Não há brasileiro que já não tenha ouvido Vinicius de Moraes que, se estivesse vivo, estaria comemorando hoje (19) 90 anos. O poetinha faleceu de edema pulmonar no dia 17 de abril de 1980, em sua casa, na Gávea (RJ).

Boêmio por natureza, Vinicius nasceu no Rio em 1913, e foi, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, um dos criadores da Bossa-Nova. Bem antes disso, foi um apaixonado por cinema e pelas mulheres. Aos 15 anos, já cantava todas as amigas da irmã e compunha seus primeiros sucessos “Loura ou morena” e “Canção da noite”.

Funcionário do Itamaraty, crítico de cinema, escritor e músico, o maior poeta popular brasileiro sempre encontrou tempo para a vida social noturna e as cervejinhas. Vinicius foi amigo de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Juscelino Kubitschek, Melo Franco, Otto Lara Rezende, Mário de Andrade, Fernando Sabino, Hélio Peregrino, Rubem Braga, Moacyr Werneck Castro, Oscar Niemeyer, Di Cavalcanti e Jorge Amado. Das amizades surgiram as célebres parcerias com Francis Hime, João Gilberto, Toquinho, Tom Jobim, Ari Barroso, Baden Powell, Odete Lara, Edu Lobo e Miúcha, só para citar alguns.

“Ele era amigo do meu pai. Quando nasci, Vinicius já freqüentava minha casa. Era quase da família”, conta Miúcha, uma das várias cantoras que o poeta ajudou a deslanchar a carreira. “Foi ele quem me ensinou os primeiros acordes de violão e a primeira vez que cantei em público foi ao seu lado, aos 15 anos. Era um bar em Roma, onde o pianista o adorava e quando ele chegava começava a tocar suas músicas. Um dia Vinicius me entregou o microfone e disse ‘canta'”, recorda a intérprete.

Mas não só de genialidade e amizades se fez sua carreira. Vinicius era rígido quando o assunto era trabalho. “Fiquei surpresa quando começamos a fazer turnê juntos porque ele era extremamente rigoroso. Ao mesmo tempo em que tranqüilizava, exigia muito. Não podia ficar com dor de cabeça ou gripada. Tinha que cantar bem”, confidencia Miúcha.

E para conseguir tempo e exercer todas as suas funções, o poeta teve que abrir mão de alguma coisa. Das mulheres nem lhe passava pela cabeça. Das viagens nem pensar. A única alternativa foi, então, dormir pouco. “Ele era o primeiro a levantar. Quando a gente acordava ele já estava esperando todo mundo”, conta. Mas até na hora de descansar o poetinha arranjava um jeito de se divertir. “O que mais ele gostava era dormir com barulhinho de conversa. Várias vezes a gente ia pro quarto dele e acordava um debaixo da cama, outro na cadeira ou no chão”, se diverte a cantora.

Não foi à toa que Vinicius viveu cercado de amigos pois maior que o dom de escrever, Vinicius tinha o dom de saber viver e, como dizia Carlos Drummond, ‘Vinicius era o único poeta que viveu como poeta’.

Se na vida profissional lançou várias cantoras, na vida familiar estimulou com amor especial a neta Mariana, que hoje é cantora e interpreta as músicas do avô. “Ele foi a primeira pessoa a dizer que eu iria cantar. Quando era pequenininha, me deu um gravador de presente pra eu fazer minhas músicas, ouvir minha voz e estudar”, conta orgulhosa Mariana de Moraes.
Em 1969, ano em que Mariana nasceu, Vininha – como era chamado pelos amigos – casou-se com Cristina Gurjão, sua quinta esposa. No total, foram oito matrimônios e há quem diga que ele nunca traiu nenhuma delas.

As viagens e constantes mudanças de endereço também permearam a vida de Vinicius, que tinha um coração inquieto demais para conseguir ficar preso a um único lugar