FHC: ‘Se a herança é tão ruim, por que continuar?’

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Publicado segunda-feira, 16 de junho de 2003 as 22:21, por: cdb

Em entrevista à Agência Tucana, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso critica a política econômica do governo Lula.

Segundo o ex-presidente, os petistas enfrentam no governo as conseqüências das “propostas irresponsáveis” que pregaram durante anos mas, no afã de mostrar serviço ao mercado, vêm “exagerando na dose” ao aplicar a política econômica do seu governo.

FH disse que a recessão da economia brasileira poderá se estender pelo próximo ano caso continue a paralisia do governo e não sejam feitos novos investimentos.

O ex-presidente conclama o partido a fazer oposição responsável, mas firme, ao governo do PT, apoiando o que for para o bem do Brasil e se opondo com vigor, em votações e na tribuna do Congresso, ao que achar prejudicial à população.

Em relação às reformas tributária e da Previdência, Fernando Henrique entende que o PSDB deve debater ponto por ponto as propostas do governo e propor emendas para corrigir os erros. Na sua avaliação, a proposta petista para a Previdência é “mais drástica” para o funcionalismo do que a do seu governo, por exigir maior tempo de contribuição e não prever período de transição.

A reforma tributária, segundo ele, é ainda pior, porque limita-se a mexer no ICMS e a aumentar a carga tributária sem resolver a questão da racionalização do sistema tributário.

Fernando Henrique observa que, se os petistas não tivessem impedido a aprovação da reforma previdenciária em seu governo, poderiam ter concedido um aumento maior do salário mínimo em abril, já que, com as contas equilibradas, o reajuste do mínimo afetaria menos o caixa da Previdência.

FH defende que o governo do PT não tem desculpa para o aumento de apenas 1% do salário dos funcionários públicos.

O ex-presidente suspeita que a virulenta oposição do PT ao seu governo tinha objetivo claro: desgastar sua administração e assim facilitar a chegada do partido ao governo.

Leia a íntegra da entrevista

PSDB – O PSDB faz 15 anos no dia 25 de junho. O partido vem cumprindo os objetivos traçados pelos seus fundadores? Na sua opinião, quais foram as principais conquistas do PSDB e o que falta fazer?

Fernando Henrique Cardoso – Um partido que, com 15 anos, já elegeu duas vezes o presidente da República e muitos governadores dos principais estados da Federação, vem cumprindo seus objetivos. Quais eram as propostas do PSDB?

Primeiro, aprofundar o processo da democracia. Este objetivo o PSDB cumpriu plenamente. O que caracteriza melhor isso foi esta última transição de poder e a campanha eleitoral. Nunca levamos a campanha para a idéia do ‘ou nós ou o caos’.

A campanha não foi feita desta maneira e a transição foi preparada antes da campanha para demonstrar que, fosse quem fosse o vencedor, o governo do PSDB teria um comportamento responsável.

E o aprofundamento democrático foi muito grande nestes anos todos, com liberdade de opinião, o MST fazendo todo o tipo de manifestação, os grupos de esquerda mais virulentos também, quase desrespeitosamente.

Nossa reação sempre foi dentro das normas democráticas. Além do mais, avançamos em questões como a do negro e a das mulheres, sem falar no que já estava consolidado, como a da liberdade sindical. Em termos de democracia, portanto, atingimos nosso objetivo. Qual era a outra proposta do PSDB?

Uma reestruturação da economia e do governo. O que era reestruturar a economia? Não era abrir mais a economia porque já estava aberta. Não abri mais nada, não baixei nenhuma tarifa, ao contrário, só corrigimos, aumentando um pouco as tarifas, porque tinha havido uma abertura no governo Collor que foi muito rápida.

Era preciso aumentar a competitividade, tinha de atrair capital. Nós atraímos. Entraram no Brasil mais de US$ 100 bilhões depois do Real. Me refiro aos produtivos, não especulativos. Além disso, preparamos a estrutura governamental para lidar com uma economia onde tinha havido quebra de monopólios e o ingresso mais forte