FHC arma “bomba-relógio” para sucessor

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Publicado segunda-feira, 15 de julho de 2002 as 22:17, por: cdb

Dívida pública brasileira pode explodir no próximo ano
O próximo ocupante do Palácio do Planalto, seja da oposição ou não, terá um grande desafio já nos primeiros meses de mandato: honrar os compromissos da dívida pública brasileira. A troca de títulos públicos em circulação por outros de vencimento mais curto que vem sendo promovida pelo Banco Central (BC) agravou a situação do endividamento oficial.
De acordo com estudo da Associação Nacional das Instituições de Mercado Aberto (Andima), antes da atuação do governo Fernando Henrique Cardoso os contratos da dívida interna com vencimento para os próximos 12 meses equivaleriam a R$ 159 bilhões. Depois da troca de títulos, este valor passou a ser estimado em R$ 221 milhões. Um aumento de R$ 62 bilhões, dos quais, cerca de 80% vão incidir no período compreendido entre dezembro deste ano e abril de 2003.
A última estimativa do Ministério da Fazenda, relativa a maio, revela que a dívida líquida do setor público alcançou R$ 708,454 bilhões. Este é um valor recorde, que representa 56% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. A variação cambial naquele mês e no anterior também teriam contribuído para o crescimento, já que cerca de 40% da dívida brasileira são compostos por títulos cambiais. Para junho, quando o dólar ultrapassou a casa dos R$ 2,90, espera-se um valor ainda maior para a dívida do setor público.
Estouro – Por esses motivos, a dívida que o próximo governo herdar é
considerada uma bomba-relógio programada para estourar no início do ano que vem. Mas para o economista da Pontifícia Universidade de Minas Gerais (PUC Minas) Ricardo Rabelo, ela pode estourar ainda neste governo. Vai depender de como se comportarem o câmbio e os investidores internacionais. Segundo Rabelo, mudanças bruscas movidas por crises de credibilidade podem acontecer no cenário, como uma grande desvalorização dos papéis da dívida brasileira ou uma fuga de investimentos em manada.
Para o economista, a situação do endividamento externo do país é tão
preocupante quanto o interno, já que o volume de vencimentos de contratos da dívida externa nos próximos 12 meses também é grande. O maior obstáculo que o Brasil tem que enfrentar, para Rabelo, é a escassez de crédito internacional. “O governo já cortou o que pôde para conseguir superávits fiscais, já privatizou o que pôde e o mercado externo não quer risco”, afirma. Na última ida ao Fundo Monetário Internacional (FMI), para levantar US$ 10 bilhões, o governo elevou a meta de superávit primário de 3,5% para 3,75%.
Default – No olhar dos investidores externos, a chance de o Brasil não conseguir honrar seus compromissos de endividamento cresce. Prova disso é o índice risco-Brasil, medido pela agência norte-americana J. P. Morgan, que, de abril a junho subiu de 700 para 1.700 pontos, oscilando na casa dos 1.500 pontos, desde então. Com o fechamento do mercado externo para empréstimos, principalmente para mercados emergentes, e diante de um déficit de R$ 20 bilhões anuais na balança de transações correntes, cresce o receio de uma “argentinização” da economia brasileira. Para o vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais, Fabrício de Oliveira, a trajetória da dívida pública do Brasil e da Argentina é semelhante. O economista acredita que o risco de inadimplência do governo brasileiro é
alto mas não prevê uma crise tão grave como a que vive a Argentina. Para ele a economia nacional é mais resistente a crises desse caráter porque conta com um parque industrial mais diversificado e uma capacidade maior de exportar, ao contrário do país vizinho, onde o parque produtivo está sucateado. “O mercado interno é capaz de segurar a economia por algum tempo, mas se o crédito seca, acaba penalizando o setor produtivo”, declara Oliveira.
Alongamento – Para Fabrício de Oliveira, especialista em finanças públicas, resta ao próximo governo dialogar com os credores da dívida pública. Diferentemente de 99 e deste ano, quando o governo brasileiro