Festival de mentiras

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Publicado quinta-feira, 24 de abril de 2003 as 21:17, por: cdb

Mentiu-se mais nesta guerra do que se poderia imaginar. Mentiu Collin Powell quando disse que os EUA teriam maioria no Conselho de Segurança, 48 horas antes que seu governo decidisse desistir de conseguir aprovar uma nova resolução no Conselho. Mentiu o governo Bush quando afirmou que tinha provas concretas de que o Iraque dispunha de armas químicas, que suas próprias tropas não encontraram.
Mentiu Saddam Hussein quando prometeu uma guerra sem trégua contra a ocupação norte-americana. Mentiu quando disse que suas tropas batalhariam à morte em Bagdá contra o inimigo. Mentiu quando disse que preferia morrer lutando.

Mentiu Rumsfeld quando disse que o povo iraquiano estava prestes a se rebelar e que se trataria de uma guerra de libertação do povo iraquiano. Mentiram os norte-americanos quando disseram que seriam recebidos vitoriosamente pelo povo iraquiano. Mentiram quando disseram que os xiitas os apoiariam, quando estes se comportaram como iraquianos diante de um invasor.

Mentiu a mídia norte-americana, que se comportou como imprensa oficial de um governo em guerra, sacrificando abertamente a informação e a verdade em favor do seu compromisso com o governo Bush e sua guerra. Mentiram os cronistas brasileiros que se comportaram como que sob um clima de guerra fria, nada contemporâneos do presente do mundo, em que nada pode ser compreendido fora da hegemonia imperial unilateral dos EUA.

Mas houve também verdades nessa guerra. Antes de tudo a verdade do imperialismo. Seja os que – como o ex-presidente FHC – se apressaram a dizer que o imperialismo já não existia mais, seja os que desconhecem a dinâmica imperial dos EUA -, muitos se embaralharam nas contraditórias declarações do governo Bush ou nos debates sobre se a guerra era movida a petróleo, a dólar, a eleições internas ou a qualquer outro fenômeno setorial, sem se dar conta da dinâmica imperial que move os EUA.

O governo Bush se assume como “império do bem”. Os que ainda vivem no clima de guerra fria podem discutir se do bem ou do mal. O certo que o argumento norte-americano é de que há zonas do mundo – cada vez mais amplas, pela evolução do seu discurso – que não conseguem governar a si mesmas e requerem tutela, a que o imperialismo vem atender.

Houve também a verdade da opinião pública mundial, que independentemente de governos, manifestou força em sua rejeição à guerra. Mostrou que é possível deslegitimar uma ação militar como a norte-americana com a massividade e a combatividade das demonstrações populares por todo o mundo.

A maior verdade desta guerra é que a hegemonia imperial é a referência fundamental do mundo atual, sem a qual tudo ou quase tudo se torna impossível de compreender.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo) e “Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).