Fé e política

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Publicado quarta-feira, 2 de janeiro de 2008 as 15:06, por: cdb
Atualizado em 14/11/16 19:56

(Pensando em meus mestres H. C. Lima Vaz e Ernani Maria Fiori)

Emmanuel Mounier, mestre do personalismo comunitário, que marcou minha geração de JUC e de AP, Betinho e outros, em Feu la chretienté, 1950, pouco antes de morrer, tantos anos atrás, dizia que não se pode ser monarquista ou socialista porque cristão. Ele era um cristão que, com os instrumentos de análise social, fez uma opção socialista, não um socialista cristão, o que seria instrumentalizar a Fé e reduzi-la a uma ideologia e, além disso, não saber usar as categorias próprias das ciências sociais.

Fundamentalismo, em jargão cristão, é integrismo, um salto direto e no vazio entre a Fé e a opção política ou técnica. Respeitemos as distinções de níveis, grande aquisição da modernidade, diante das velhas ou novas cristandades. Podemos ver renascer entre nós os ayatolás, com as melhores das intenções. Creio que Dante dizia que estas forram o chão dos infernos (ou do purgatório?).

Optemos ou rejeitemos valentemente projetos políticos e técnicos, sem nos esconder nos pretextos da profecia, que é um gesto muito menos comum do que se pensa e seria uma arrogância querer aplicá-lo à ligeira. Muito menos o martírio. Já falei disso em texto anterior. Jung Mo Sung nos está ajudando a pensar.

Respeito muito Cappio e tenho enorme carinho por ele. Mas não deveria utilizar sua condição de bispo para uma posição destas. Faça-o como cidadão e ribeirinho apaixonado. E o côro de emocionalidades e lágrimas que se levantou, deveria pensar um pouco mais nas distinções da teologia e da política. Não abastardemos profecia e martírio. Ato político é ato político e não pode se esconder atrás de uma batina ou dos gestos dos novos “bien pensants”. Que falta faz Mounier!

Um dos apoiadores disse ontem que agora o governo resolveu dialogar! Que loucura, desde o começo Gilberto e outros, incansavelmente, estão tentando. Claro, com rigidezes e simplificações de um ministro do próprio governo. Mas seu trabalho paciente topou com a inflexibilidade de Cappio e de seus assessores. Agora, o médico e o irmão dizem que acabou e greve e os assessores dizem que não. Porque não se substituem a ele? É fácil empurrar o outro para a morte. Aliás, nos jejuns, em princípio, ninguém morre. Gandhi sempre parou um pouco antes, mas manteve sua aura.

E ao terminar este texto soube que Cappio interrompeu o jejum. Lula fez o que teria de ser feito. Como presidente apenas disse que o projeto segue. Gilberto Carvalho, grande amigo, como cristão, e com uma paciência invejável, tratou de mediar. O presidente não deve entrar nisso.

Uma profecia que se reduziria aos ribeirinhos, que não são os donos do rio e ao próprio rio, esqueceria todos os outros pobres nordestinos. Houve muitos debates técnicos e sempre um projeto pode ser melhorado, mas um governo não pode suspender tudo pelo gesto extremado de alguém, seja bispo ou não. A Justiça, por maioria, não viu argumentos técnicos sérios para parar o projeto. E o texto de Bernardo Kucinski, em Carta Maior, desmontou brilhantemente. um a um, os argumentos contrários ao projeto. Do ponto de vista teológico, Jung Mo Sung, em outras publicações mais de Igreja, também desocultou fundamentalismos ocultos.

É hora de um debate sério sobre categorias teológicas e políticas. Tenho a impressão que há muita política escondida atrás de uma declarada fé. Faz alguns anos, eu dizia que nos debates entre fé e política, tínhamos freqüentemente uma política com maiúsculas, instrumentalizadora e uma Fé com minúsculas. Em nome desta última, desconfio de certos movimentos que tendem para um certo integrismo, que não é propriedade da direita.

Terminando com Mounier, seu último e aceso debate foi com os católicos progressistas de seu tempo, um dos quais, que depois esteve em tantas posições, se chamava Garaud