Falta de comida leva desespero ao Haiti uma semana após Jeanne

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Publicado domingo, 26 de setembro de 2004 as 10:26, por: cdb

O desespero causado pela falta de alimentos e o caos desencandearam a violência na cidade de Gonaives, uma das mais atingidas pelas inundações, uma semana após a passagem do furacão Jeanne pelo Haiti.

Dezenas de pessoas abandonaram neste sábado essa cidade, no oeste haitiano, com o pouco que o Jeanne deixou para elas. Por sua vez, as autoridades começam a elaborar planos para evacuar a área diante da ameaça de epidemias.

Já as organizações humanitárias tentam entregar a ajuda humanitária internacional que continua chegando em pouca quantidade e que é recebida pelos desabrigados em meio a cenas de desespero.

As chuvas deste fim de semana também provocaram pânico entre a população, que lembrou do começo da tragédia, que no último domingo matou mais de mil pessoas.

Pelo menos 1.113 pessoas morreram e 1.251 continuam desaparecidas em todo o país devido às inundações provocadas pelo Jeanne, que, transformado em um forte furacão, atingiu ontem as Bahamas e já está na costa do Estado da Flórida (EUA).

“Não tem comida, não tem água”, contou Jeanet Michel, de 42 anos, que passa as noites no teto de uma casa e não pode “lutar” para conseguir alimento porque está doente e fica “para trás” em meio à multidão.

Diante do caos causado pela falta de alimentos e das necessidades básicas da população, as tropas da Missão de Estabilização da ONU no Haiti (MINUSTHA) tiveram que atirar para o alto e lançar bombas de fumaça para dispersar a multidão, que chega a abrir as portas e subir nos comboios em movimento.

As autoridades haitianas pensaram em implementar um plano de evacuação em algumas áreas de Gonaives com o intuito de promover uma operação de limpeza contra a ameaça de epidemias. Porém, a idéia ainda está sendo discutida.

Neste sábado, em meio a um mar de pessoas sedentas e famintas, um menino haitiano foi atropelado por um caminhão de ajuda que ia para um centro de distribuição.

Dezenas de pessoas que ficaram feridas esperam para serem atendidas por vários médicos argentinos e brasileiros da MINUSTHA, que já fizeram pelo 2menos cinco partos com poucos recursos nas salas vazias de um edifício universitário.

O Hospital Geral de Gonaives ficou destruído pela inundação e está recebendo ajuda da organização Médicos do Mundo, de uma missão de médicos cubanos e de outras ONGs.

Muitos habitantes da cidade apresentam ferimentos graves na sola dos pés porque se cortaram ao andar descalços pelas ruas inundadas, onde ainda aparecem cadáveres e o cheiro dos animais mortos às vezes é insuportável.
As autoridades receberam 15 toneladas de ajuda humanitária vinda do Chile, que se somaram à ajuda venezuelana e de outros países.

O governo venezuelano também enviou 2.000 toneladas de alimentos e materiais a Haiti, Cuba, Granada e Jamaica, a fim de minimizar os danos causados nesses países pela recente passagem de furacões e tempestades tropicais.

No entanto, foram muitas as pessoas que, sem esperança, abandonaram a cidade em ônibus abarrotados carregando malas, mesas, cadeiras e demais pertences.

O acesso a Gonaives por estrada demora pelo menos quatro horas a partir de Porto Príncipe. No trecho final, a paisagem é como um grande lago onde só aparecem telhados, letreiros e cactos.

O governo haitiano criou um comitê misto, presidido pelo ministro da Defesa, Herald Abraham, para coordenar a distribuição de ajuda.

Jeanne não foi o único fenômeno meteorológico que atingiu o Haiti este ano.
Em maio passado, fortes chuvas provocaram a morte de cerca de 3.000 pessoas em sua fronteira sudeste com a República Dominicana.