Falência da segurança no Rio

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Publicado sexta-feira, 17 de abril de 2015 as 15:00, por: cdb
Na década de 80, quando o então Governador Leonel Brizola proibiu que a polícia entrasse nas casas das favelas arrombando portas, a mídia conservadora praticamente o linchou.
Na década de 80, quando o então Governador Leonel Brizola proibiu que a polícia entrasse nas casas das favelas arrombando portas, a mídia conservadora praticamente o linchou.

A política de segurança adotada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro está falida. O Governador Pezão, ao melhor estilo Sérgio Cabral, é convocado pelos telejornalões para defender o indefensável.

Ele simplesmente ignora o clamor dos que vivem em áreas carentes da cidade do Rio de Janeiro. Em seus pronunciamentos, só fala em mais repressão e que não volta atrás em nada, muito pelo contrário.

As UPPs são uma imitação grotesca do esquema adotado em Medellín, na Colômbia e com o incentivo do Pentágono. Por lá circularam o então governador Sérgio Cabral e o Secretário de Segurança, Mariano Beltrame. Na volta simplesmente transplantaram mecanicamente o que viram.

Depois dos últimos acontecimentos sangrentos no Complexo do Alemão, as UPPs não podem continuar como estão. A PM trata os moradores das áreas onde atuam como meliantes. Qualquer coisa o Estado governado por Pezão se coloca como vítima de balas assassinas de traficantes. A mídia conservadora chama quem protesta contra a violência policial de vândalos.

Nas matérias da Rede Globo só aparecem versões da PM. O Governador Pezão e o Secretário de Segurança Beltrame fazem declarações seguidas com inúmeras promessas, que geralmente não se cumprem. Falam que vão cuidar de infraestrutura nas áreas carentes, mas na prática só apresentam mais e mais repressão policial.

A própria PM atua nas UPPs em condições precárias nos alojamentos. Isso foi mostrado, mas o que não se apresenta nas TVs é a ação violenta da PM contra os moradores das favelas.

Quando saem dos quartéis os soldados e oficiais recebem instruções como se fossem para uma guerra e nesse sentido precisam combater o inimigo. Pobre coitado daquele que aparece pela frente. A PM obedece a voz de comando que é ditada por Pezão e Beltrame.

No fundo, a ação militar favorece os próprios narcotraficantes que se valem muitas vezes da insatisfação dos moradores, os mesmos que nunca aceitaram a dominação anterior dos delinquentes.

Na cobertura sobre as quatro mortes no Complexo do Alemão e as manifestações populares de protesto, só foram ouvidas a cúpula da segurança. A Globo simplesmente ignorou a voz dos moradores.

O jornalismo da Globo ignora uma das partes, exatamente a mais frágil, e o telespectador só forma opinião, se é que forma, a partir da verdade imposta pelas autoridades.

Resta saber quanto tudo isso representa em termos de publicidade entrando na caixa das Organizações Globo.

A propósito de interesses dos proprietários de veículos de comunicação, o mesmo Pezão que insiste na adoção de esquemas de segurança que visivelmente fazem água, acabou de excluir a categoria dos jornalistas do projeto de lei instituindo novos pisos salariais em âmbito do Estado do Rio de Janeiro.

Pezão simplesmente fez o jogo dos proprietários midiáticos que tanto o ajudam a esconder as mazelas de sua administração.

Pezão tornou-se inimigo dos trabalhadores jornalistas. E além do mais, para satisfazer os barões da mídia passou também por cima de um acordo suprapartidário, inclusive com a adesão do próprio PMDB, que institui os novos pisos salariais.

É desta forma que Pezão vai levando o seu governo. Tenta enganar meio mundo com a ajuda da mídia conservadora.

Somos todos, claro, a favor da liberdade de imprensa e de expressão. Mas o que não se pode admitir é misturar as bolas, ou seja, defender a liberdade de empresa, misturando-a com a liberdade de imprensa.

Os meios de comunicação conservadores se transformaram em partidos políticos. A falência do modelo de segurança implantado no Rio de Janeiro precisa ser debatida sem nenhum tipo de objeção. É preciso modificá-lo o mais rápido possível.

E se isso não acontecer continuaremos assistindo barbaridades como a do Complexo do Alemão.  E qualquer tipo de contestação é encarado por Pezão e pela mídia conservadora como “coisa de narcotraficantes”.

Sai ano entra ano tudo se repete. Na década de 80, quando o então Governador Leonel Brizola proibiu que a polícia entrasse nas casas das favelas arrombando portas, a mídia conservadora praticamente o linchou.

No esquema do senso comum, alguns colunistas, um deles o hoje poderoso global Ali Kamel acusava Brizola de ser o responsável pela violência urbana. Hoje, os que agrediam Brizola defendem incursões violentas com arrombamentos de portas nas moradias das favelas.

É isso que precisa acabar, porque esse tipo de política está falida.

Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançado no Rio de Janeiro.

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