Faleceu Carlos da Silva, cidadão do mundo

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Publicado quarta-feira, 21 de setembro de 2011 as 11:13, por: cdb

Morreu ontem após doença prolongada, em Lisboa, Carlos da Silva, fotógrafo, artista, repórter comprometido com as causas da justiça e dos direitos humanos.Artigo |21 Setembro, 2011 – 17:58Carlos da Silva

Grande viajante, muito bem disposto, soube captar o quotidiano de comunidades rurais por todo o país. Foi um grande divulgador da cultura popular, através de colecções de postais. Aventurou-se no mar, retratando festas de comunidades de pescadores. Muitas vezes trabalhou em parceria com a sua ex-companheira e mãe do seu filho. Ajudou a retirar do anonimato as festas e tradições dos caretos de Trás-os–Montes, a arte da cerâmica tradicional, ofícios ameaçados de extinção.

Carlos da Silva, particularmente nos trinta e tal anos após o 25 de Abril, teve uma vida cheia.

Funcionário do Ministério da Educação, começou por ser professor, mas rapidamente mudou de serviço para exercer a sua vocação de fotógrafo. Entusiasta da alfabetização de adultos, percorreu o país em serviço, sempre com a sua máquina fotográfica. Paralelamente ao trabalho para o ministério, nos fins de semana, tempos livres e férias, fazia o trabalho complementar e cívico de resgatar a beleza e a dignidade das pessoas humildes. Cheio de humor, interessou-se e enalteceu os rituais populares de exorcismo das tensões locais, carnavais, festas de mascarados.

Entrava pela mão das pessoas nas casas pequenas e exíguas, nas barracas de famílias ciganas, e captava o quotidiano nas fotografias. Recolhia instantes e pormenores que diziam tudo: a vivência, os sentimentos, o que era importante para as pessoas que se lhe entregavam como a um filho, a um irmão. A fotografia é a arte do pormenor, dizia.

Alegre e entusiasta vivia aquilo que fazia. Aderiu à revolução do 25 de Abril de alma e coração. Sempre à esquerda, acompanhou, envolveu-se e retratou a esperança criada no país pelo Bloco de Esquerda. Nas manifestações sindicais, contra a guerra, era vê-lo incansável a apanhar os mais surpreendentes instantâneos.

Era activista do movimento LGBT.

Nos últimos anos assistiu-se a uma explosão de criatividade do Carlos: multiplicaram-se as exposições em cidades e vilas do país e em vários países estrangeiros, onde lhe era fácil criar redes de solidariedade, misturar temas e estilos, fazer parcerias. Dialogava com vários autores portugueses e estrangeiros, fazia trabalhos conjuntos, participava em exposições colectivas com incrível generosidade. Começou a trabalhar as próprias fotografias, a fazer colagens em papel, madeiras, pintura, misturando várias artes.

Foi autor de vários livros, em que o seu olhar através das fotografias abria horizontes de intensa humanidade e prazer.

Soube captar os grupos inter-culturais, como por exemplo dos povos da antiga Jugoslávia, durante umas férias na década de 70, antes das guerras dos Balcãs.

Coleccionador de artesanato de vários pontos por onde passou, de Trás os ;Montes à Índia, caracterizava-se também pelo seu critério crítico e despido de preconceitos. Os outros nunca eram estranhos: eram outras pessoas.

O seu corpo estará hoje a partir das 18h e até à meia-noite na igreja das Furnas, ao jardim Zoológico, em Lisboa. O funeral partirá amanhã, quinta-feira, às 11.30h, para o cemitério dos Olivais.

Ao seu filho, familiares e amigos – apresentamos a nossa solidariedade.

Texto de Jaime Pinho