Exército norte-americano entra em Tikrit

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Publicado domingo, 13 de abril de 2003 as 10:46, por: cdb

As tropas americanas entraram neste domingo em Tikrit, cidade onde nasceu Saddam Hussein, segundo um porta-voz do Comando Central dos Estados Unidos no Catar.

As forças dos Estados Unidos não encontraram resistência e estavam recebendo ajuda de pessoas residentes na cidade, segundo o porta-voz.

Essa é a única grande cidade que ainda não está sob controle das forças da coalizão, e tem havido especulações de que a Guarda Republicana leal a Saddam Hussein estaria planejando resistir ao avanço dos americanos.

Mais cedo, a rede de TV CNN exibiu imagens de Tikrit feitas por sua equipe em uma base militar ao norte da cidade, que mostram grande número de tanques abandonados e inicialmente nenhum sinal de combatentes preparados para defender a área. Mas a equipe teve que recuar depois de ter sido atacada em uma barreira militar.

Em toda a região do Golfo, começam as mudanças na estratégia de emprego de forças militares pelos americanos. Há sinais de que a ênfase no uso de força aérea está sendo reduzida, segundo especialista da BBC.

Deserções

Antes mesmo da tomada de Tikrit, já começam a ser explicadas as dúvidas sobre como parte das forças iraquianas lutou – ou deixou de lutar – na guerra.

Em uma entrevista ao correspondente da BBC Andrew Gilligan, um coronel da Guarda Republicana, que preferiu não se identificar, disse que praticamente não recebeu ordens da cúpula do governo durante a guerra.

Ele afirmou que o bombardeio americano afetou seriamente a moral de suas tropas e que havia soldados querendo desertar todos os dias.

Segundo o militar, os comandantes só teriam concordado em entrar na guerra porque, caso contrário, seriam executados.

Deserção

O coronel contou que sua unidade da Guarda Republicana foi colocada inicialmente no deserto ao sul de Bagdá, mas acabou sendo realocada na capital para defender a cidade.

Ele afirmou que sua unidade – incluindo ele – acabou desertando completamente uma semana antes da invasão da cidade.

Segundo o coronel, que comandava diretamente 600 homens, as primeiras ordens foram de que eles ficassem em suas posições e “se escondessem das bombas”.

Mas, aparentemente, durante os combates não houve mais contatos da cúpula militar.

“Eu não recebi nenhuma ordem desde o começo (da guerra)”, disse o coronel, que foi entrevistado em sua casa, em Bagdá.

De acordo com ele, seus superiores disseram que se o aeroporto da cidade ainda estivesse aberto era porque o Iraque ainda estava lutando.

Sem vontade

O militar contou ainda que desde o começo do combate acreditava que não havia equilíbro de forças para entrar na guerra.

Ele afirma que não forçou seus soldados a lutar e que todos os dias havia soldados desertando.

Segundo o coronel, esses soldados simplesmente tinham que colocar suas roupas de civis, que estavam com eles, e deixar suas armas para trás.

Ele contou ainda que os soldados iraquianos não quiseram lutar nas ruas de Bagdá porque era a sua cidade e o lugar onde estavam as suas famílias.

O coronel acrescentou que o Corão diz que um soldado deve vencer ou morrer.

“Mas quando vimos que não havia ninguém para nos comandar, para dizer qual era o plano, para que eu ia lutar?”, perguntou ele. “Eu disse que ficar em casa é melhor.”

Quando as tropas americanas estavam mais próximas de Bagdá, conta o coronel, os comandantes que ainda estavam em contato com ele se reuniram em torno de uma fogueira e decidiram que não valia à pena entrar em combate.

Todos trocaram as roupas e foram para casa.

O correspondente Andrew Gilligan diz que é crescente a sua percepção de que os oficiais do Exército iraquiano continuaram a seguir ar ordens de Saddam Hussein, mas não queriam efetivamente que ele ganhasse a guerra e não fizeram nenhuma tentativa séria para defendê-lo.