Exército deixa as ruas do Rio

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Publicado sexta-feira, 14 de março de 2003 as 13:59, por: cdb

Depois de duas semanas marcadas por desentendimentos entre o Estado e a União quanto à permanência das tropas federais nas ruas, os 3 mil homens das Forças Armadas que patrulhavam o Rio voltam nesta sexta-feira para os quartéis. A Operação Guanabara, que tinha como objetivo proteger a população durante o carnaval, acabou se estendendo a pedido da governadora Rosinha Matheus.

Ela acredita que os militares deram maior “sensação de segurança”. A governadora havia solicitado que a ajuda continuasse por um mês, mas a União negou o pedido.

A operação foi montada por causa das ações violentas promovidas pelos traficantes de drogas nos dias anteriores ao carnaval. Foi a primeira vez que militares ocuparam as ruas durante a festa. Os grupamentos chamavam a atenção por se concentrarem em vias movimentadas do Rio, mas as tropas não se envolveram em confrontos com os bandidos.

Houve um incidente grave: no dia 4 de março, o professor de inglês Frederico Branco de Farias, de 55 anos, foi morto a tiros depois de passar por uma blitz de militares.

As últimas vezes em que o Exército participou da segurança no Rio haviam sido no primeiro e segundo turnos das eleições. Na ocasião, 3 mil militares ocuparam as ruas e 8 mil ficaram de prontidão nos quartéis. Durante a Operação Rio, em 1994, soldados subiram favelas e patrulharam as ruas por cerca de dois meses.

Em reunião com o secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, os comerciantes do Rio revelaram que, só em 2002, gastaram R$ 3,8 bilhões com segurança privada, três vezes o orçamento da secretaria.

O secretário recebeu sugestões de combate à violência, como instalação de áreas de “tolerância zero” nos pontos turísticos. Soares comparou a iniciativa do governo Lula às tentativas de seus antecessores. “Nunca houve nenhuma experiência no Rio para além de forças-tarefa, de missões bastante localizadas”, disse.

“O que estamos tentando agora é muito mais ambicioso, é a estruturação de um sistema único de segurança que faz com que trabalhemos juntos, unificando esforços.” Negou, porém, que um dos pontos do plano seja o combate à corrupção nas Forças Armadas. “Este é um problema inexistente.” O uso de armas militares é uma das marcas do crime organizado no Estado.

Mas as declarações atribuídas ao secretário, de que o combate à corrupção nas Forças Armadas estaria entre as propostas para reduzir a violência no Rio, causaram um princípio de crise.

Depois de reunião no Planalto com os ministros da Defesa, José Viegas Filho, da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e da Casa Civil, José Dirceu, o Ministério da Defesa distribuiu uma nota refutando “de forma categórica e serena, a insinuação que permeia certas notícias de imprensa (…) a respeito de suposta corrupção nas Forças Armadas”.

Mais tarde, Soares distribuiu um comunicado, no qual “esclarece ainda que, ao contrário do que foi noticiado na imprensa, entre as hipóteses de políticas públicas em discussão, nunca foi cogitada a de combate à corrupção nas Forças Armadas, pois entende que, além de inexistente, esse problema é alheio à pauta que vem sendo construída em parceria com as autoridades daquele Estado”.

Na reunião da manhã desta quinta, os três ministros discutiram a pauta que conteria cerca de cem propostas para combater o crime organizado no Rio, que será apresentada nesta sexta, às 16 horas, à governadora. Antes da ida ao Rio, uma outra reunião dos ministros ainda será realizada no Planalto, com Lula, para que sejam definidas as medidas a serem propostas.