Ex-moradores de rua lutam para reconstruir suas vidas

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Publicado segunda-feira, 6 de setembro de 2004 as 09:45, por: cdb

Wagner Rodrigues, 24 anos, tem na lembrança um número indefinido de irmãos. Alguns ele conhece por meio de fotos, mostradas por sua avó. O rapaz passou a metade de sua vida morando nas ruas do Rio ou em abrigos públicos e hoje sonha em ter sua própria casa e constituir uma família.

No passado, Wagner sofreu maus-tratos por parte do pai e foi posto para fora de casa, com 12 anos de idade. No presente, ele sonha em reconstruir sua história de vida. Sonho que começou a se tornar realidade quando ele chegou ao programa Reconstruindo Cidadania, da Secretaria de Ação Social.

Dependente químico, recebeu tratamento e, em apenas seis meses, Wagner fez três cursos profissionalizantes na instituição. Hoje, o ex-morador de rua está empenhado no aprendizado: participa de um módulo que ensina o ofício de garçom e técnicas no preparo de doces, salgados e frios decorativos para festas. Ele faz parte de um grupo de 30 ex-moradores de rua que preparam e servem comida nos bufês solicitados pelas secretarias estaduais ao programa.

– O Wagner tem muita força de vontade. Logo sairá daqui como muitos outros e conduzirá sua vida sem precisar de ajuda – garante o instrutor e mestre de cozinha José Nicolau.

O programa Reconstruindo Cidadania já atendeu a mais de três mil moradores de rua, desde 2000. Atualmente são 360 pessoas abrigadas, sendo 51 famílias, que têm ao todo 108 filhos, dos quais 12 são bebês. Os demais são mulheres e homens solteiros.

No início do ano, o programa foi reestruturado e só, então, passou a atender também a famílias. Antes, os pais e as mães ficavam abrigados no Reconstruindo Cidadania e os filhos eram encaminhados para um abrigo infantil. Agora, quando uma família é acolhida com seus filhos, as crianças são matriculadas na escola pública e permanecem junto aos responsáveis. No abrigo participam de uma jornada ampliada, onde recebem reforço escolar e praticam atividades sócio-culturais.

Aos pais, além dos cuidados psicológicos e retirada de documentos, são oferecidos cursos profissionais e encaminhamento para o mercado de trabalho. Nos últimos quatro meses, 100 pessoas foram qualificadas e conseguiram empregos. Uma vez reconstruída suas cidadanias, elas se desligam do programa, alugam casas ou quartos e passam a viver por conta própria. Em julho, saíram 48 pessoas e outras 31 foram acolhidas.

O Reconstruindo Cidadania oferece oficinas de letras e silk screen, computação, inglês para informática, confecção (corte, costura e desenho), cabeleireiro, culinária (garçom, panificação, doces finos, salgados e frios decorativos), e, o mais novo curso, de jardinagem, convênio firmado com o IEF (Instituto Estadual de Florestas), que absorverá a mão-de-obra qualificada.

Os adultos também são matriculados em escola de ensinos médio e fundamental. Dos abrigados, hoje, dois já estão cursando faculdades de letras e direito. Rubens Silva, que sonha em ser advogado para retribuir a ajuda que recebeu, prestando algum serviço voluntário, divide apartamento no Rocha com outros dois colegas de trabalho e garante que sua vida foi reconstruída.