Evento compila e discute legado de Leila Diniz

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Publicado sexta-feira, 14 de dezembro de 2001 as 18:31, por: cdb

Grande escritora, Lygia Fagundes Telles também foi a primeira mulher a cursar a Faculdade de Direito, no Largo São Francisco. Por isso mesmo, Eugênio Puppo e Daniel Brandão, filho do escritor Ignácio de Loyola Brandão, estão pedindo a Lygia que escreva o texto de abertura do livro que eles pretendem dedicar a Leila Diniz e que integra um projeto maior – Leila para sempre Diniz, como o título do poema de Carlos Drummond de Andrade. Livro, retrospectiva dos filmes, exposição de fotos e mesas-redondas. Leila para sempre Diniz quer reabrir o debate sobre aquela que, no dizer do poeta, o grande Drummond, “libertou as mulheres de sua geração”.

Leila, a libertária, revista por Lygia Fagundes Telles, feminista avant la lettre. E não só por Lygia. A idéia do livro é trazer a histórica entrevista de Leila ao Pasquim, depoimentos dos diretores que trabalharam com ela, de amigos e familiares. Tudo para retraçar o mito dessa mulher que viveu como um furacão no Brasil dos anos 60, morrendo tragicamente num desastre de avião. Em junho de 2002, completam-se 30 anos da morte de Leila. Em março, no dia 25, ela estaria fazendo 57 anos (nasceu em 1945). A idéia de Puppo e Brandão é inaugurar o megaevento sobre Leila em 15 de março, mas para isso eles precisam de um co-patrocínio.

Explica-se o co-patrocínio. O evento, orçado em R$ 170 mil, já tem patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil, que não tem condições de bancar essa verba toda. Sem ela, o livro sobre Leila arrisca-se a virar só um catálogo da exposição e da retrospectiva. Os curadores Puppo e Brandão também querem fazer cinco cópias de cada filme, restaurar os que não estão 100%. O orçamento já aprovado pelo CCBB, e que eles não divulgam, não permite fazer tudo isso. Impõe uma limitação, acaso uma modéstia que eles acham que não serve à magnitude do projeto.

Puppo já assinou a curadoria das mostras sobre o cinema marginal e Walter Hugo Khouri. Ambas estão entre o que de mais importante o CCBB promoveu este ano. Consciente da importância do trabalho de resgate cultural que o CCBB realiza, Puppo procura agora a segunda parceria, ou o co-patrocínio, para dar a Leila a exposição que ela merece. Puppo tem 35 anos. Tinha apenas 5, portanto, quando Leila morreu. Adulto, descobriu a personagem e ficou absolutamente fascinado, mas nunca entendeu inteiramente Leila Diniz. Promove esse evento, agora, movido pela curiosidade.

Foi a mesma curiosidade que o levou a fazer a curadoria do evento sobre o cinema marginal. Puppo conhecia aqueles filmes – alguns, não todos. Queria conhecê-los todos, queria ter a oportunidade de contextualizar, de entender o Brasil dos cineastas marginais. Quer fazer agora a mesma coisa com Leila.

Quer saber como ou de que maneira o mito sobrevive. O que Leila representa para as mulheres de hoje? A grávida que vai hoje à praia de biquíni talvez não saiba, mas foi Leila, com sua coragem e irreverência, que enfrentou o puritanismo, em plena era da ditadura, para que ela possa expor ao sol sua gravidez.

O livro, Puppo imagina, terá 112 páginas, em papel de boa qualidade e será fartamente ilustrado. As fotos vão trazer a Leila a que o público está acostumado – grávida, na praia, como musa da Banda de Ipanema – e também imagens nunca vistas, que ele terá oportunidade de garimpar, nos próximos dias, no baú de Janaína, a filha que Leila esperava quando se deixou fotografar ao sol, com aquela barriga de quem já está prestes à dar luz a um bebê. Fotos, muitas fotos. E filmes. E depoimentos. Puppo quer lançar o foco sobre Leila e sua época.

Ela foi achincalhada, por seu compartamento, pelos jurados do programa Quem Tem Medo da Verdade?, na extinta TV Record. Rompeu em lágrimas quando eles a chamaram de imoral e disseram que jamais poderia ser uma boa mãe. O programa era apresentado por Flávio Cavalcanti, cujo reacionarismo foi exposto num livro sobre o polêmico apresentador. Nesse livro, Cavalcanti é pintado como o demo, mas ele tinha lá suas contradições.