Europa: as finanças suplantam a política

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Publicado quinta-feira, 5 de abril de 2012 as 16:52, por: cdb

Olhando os rendimentos dos ministros do governo italiano, poderíamos perguntar se estamos a regressar à democracia censitária, o antigo sistema que concedia o voto a partir de certo nível económico. Por Roberto Savio, IPSArtigo |5 Abril, 2012 – 18:47Mario Monti: dez milhões no banco

Roma, Itália, março/2012 – Como passageiros de um navio no meio de uma tempestade, bancos e governos europeus apoiam-se mutuamente em instável equilíbrio. A tempestade é financeira e, a esta altura da crise, os papéis inverteram-se: agora os governos pedem ajuda aos bancos. A enorme injeção de dinheiro que o Banco Central Europeu (BCE) está a dar aos bancos, em condições favoráveis sem precedentes, serviu para comprar boa parte dos títulos da desvalorizada dívida pública de muitos países europeus, e garantir o cambaleante carro da zona do euro. Depois de três anos, terão que devolver estes empréstimos. Porém, os bancos que estavam em perigo poderão esconder os seus problemas estruturais por um triénio, e depois os governos terão de renovar o apoio, porque não vão deixar bancos falir…

Assistimos a um desenvolvimento muito interessante. Antes da crise, o setor financeiro tinha assumido o controlo da economia “real”, isto é, a produção de bens e serviços. O fluxo de capitais especulativos chegava a 4 biliões de dólares diários, contra menos de mil milhões do setor produtivo. E, apesar da sua monstruosa dimensão, a finança especulativa é o único setor que não está sujeito a um órgão regulador, ao contrário de comércio, trabalho, turismo, transportes e os demais da economia real.

Por isso, quando surgiu a crise de 2008, reclamou-se universalmente uma revisão profunda do sistema financeiro: proibição da especulação financeira de alto risco – uma das causas da crise –, e uma reforma para que não existam “bancos demasiado grandes para falir” e o Estado ter de salvá-los com dinheiro dos cidadãos. Disto já nem se fala, e nem foi implementado um imposto simbólico (a Taxa Tobin) sobre as transações financeiras.

Não só o sistema não foi reformado, como os financeiros assumiram o controlo da política. Primeiro, intervieram para salvar uma União Europeia em falência. Em pouco tempo, ex-funcionários do banco norte-americano Goldman Sachs assumiram as rédeas do BCE, dos governos de Grécia e da Itália, e cargos centrais na Espanha, França, Hungria e Lituânia. O novo presidente do BCE, Draghi, modificou a política de seu antecessor Trichet, concedendo um crédito ilimitado aos bancos que, em troca, auxiliam os governos em crise comprando títulos de suas dívidas, embora no caso grego a obstinação alemã tenha impedido uma solução rápida. Na Itália, os juros sobre sua dívida caíram para menos da metade.

Sucessivamente submeteu-se manu militari os países em risco a um severo ajuste fiscal, como se o défice orçamentário fosse o único problema. Nada importam o défice social, nem o défice de confiança da cidadania. A prioridade é conquistar a confiança dos mercados mediante os cortes orçamentários. Assim, os governos dependem da opinião dos mercados, não dos cidadãos, e menos ainda dos partidos, considerados causadores da crise ou incapazes de enfrentá-la.

O resultado são incontáveis felicitações cruzadas entre ministros e banqueiros (FMI e Banco Mundial incluídos), porque, segundo eles, estão a superar a crise. O primeiro-ministro italiano Monti em poucos dias fez da sua credibilidade perante Wall Street a base de sua legitimidade.

De facto, hoje a política é legitimada pelos mercados, ou seja, “os técnicos” no governo recebem a aprovação dos seus ex-colegas financeiros. E é isto o que decide se um governo pode escapar da guilhotina. E, na União Europeia, cada dia mais desunida, fazem-se e desfazem-se alianças. O quarteto Monti-Rajoy-Cameron-Rutte acerta-se para balancear a dupla Merkel-Sarkozy… O que não impede Cameron, Rajoy e Merkel de manifestarem a sua preferência por Sarkozy ao seu adversário Hollande.

Enquanto isso, o desemprego, especialmente o juvenil, aumenta, e são cerceados todos os direitos do trabalhador, da pensão à idade de aposentação. Pagam os cidadãos, não as finanças, e, com a progressiva redução da arrecadação fiscal, o círculo vicioso agrava-se sem mudar os técnicos na função de governo cuja política consiste, simplesmente, em continuar a cortar até atingir a paridade orçamentária. Assim, agrava-se a deslegitimação da política e encaminhamo-nos para uma fórmula de democracia restrita a um setor minoritário.

E agora que na Itália o governo Monti, com grande exemplo cívico, publicou os rendimentos obtidos pelos seus ministros antes de entrarem no governo, poderíamos perguntar se estamos a regressar à democracia censitária, o antigo sistema que concedia o voto a partir de certo nível económico. A ministra da Justiça declarou rendimentos no valor de sete milhões de euros em 2010, o vice-primeiro-ministro de 2,5 milhões, enquanto Monti ganhou 1,5 milhão e tem dez milhões no banco. Nesta espécie saudável de “transparência”, que seria o “lado bom” da transição em curso, descobre-se que o salário do chefe da polícia chega a 621.253 euros. Parece que se está a substituir os políticos de profissão por uma casta de superburocratas tão bem pagos que, com os seus novos salários governamentais, perdem uma grossa porção dos seus rendimentos anteriores.

Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS).

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