EUA não contam com apoio do povo kuwaitiano

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Publicado terça-feira, 25 de fevereiro de 2003 as 18:39, por: cdb

Ao ser aproximar o aniversário da retirada do Iraque na Guerra do Golfo, as memórias dos kuwaitianos do papel dos EUA na libertação de seu país está sendo minada pelas políticas de Washington para o Oriente Médio e pela pregação de extremistas islâmicos.

Desde o final do ano passado, ocorreram três atentados a tiros contra soldados americanos no Kuwait. Enquanto em 1991 os kuwaitianos abraçaram e beijaram soldados dos EUA, hoje forças americanas se movem pelo país em meio a medidas de segurança sem precedentes.

“O tempo enfraquece a memória coletiva, e os americanos sabem que o povo aqui é árabe e simpatiza com os palestinos”, explicou o jornalista Sami al-Nisf.

Árabes acreditam que a política dos EUA é tendenciosa em favor de Israel, e as imagens na mídia de vítimas palestinas no conflito com o Estado judeu incentiva sentimentos antiamericanos.

“A América vai entrar no Iraque para libertar seu povo, mas ao mesmo tempo não condena o que os israelenses estão fazendo com os palestinos”, afirmou o empresário Hisham al-Rayyes.

Al-Rayyes, que retornou ao Kuwait após a libertação e encontrou sua casa saqueada, disse que os kuwaitianos que sofreram sete meses de ocupação iraquiana não esquecerão de seus libertadores americanos, mas “nosso problema é com os jovens”, que são vulneráveis à pregação extremista.

Um destacado fundamentalista muçulmano, Abdul-Razzak al-Shayeji, acredita que os americanos abusaram das boas-vindas. “A presença deles é colonização. O Kuwait tornou-se uma base da qual eles podem trabalhar para alcançar seus objetivos de hegemonia e o reordenamento da região”, considerou, referindo-se à concentração de tropas americanas no país para uma possível invasão do Iraque.

Um professor da sharia (lei islâmica), al-Shayeji disse que os kuwaitianos estão divididos entre “garantir a segurança de seu país e manter sua identidade islâmica e árabe”.

Entretanto, ele defendeu que os islâmicos não deveriam pegar em armas contra os americanos. “Eles deveriam se expressar com discursos”, e não dar qualquer motivo ao governo para reprimir o movimento islâmico.

Em novembro, dois extremistas religiosos kuwaitianos mataram a tiros um fuzileiro dos EUA e feriram outro numa ilha do Kuwait. Os atacantes foram mortos a tiros por outros fuzileiros. Treze supostos cúmplices foram presos.

Um terceiro islâmico é acusado de ter matado um empresário do ramo de computadores de San Diego e ferir outro em 21 de janeiro em Camp Doha, onde estão baseadas as forças dos EUA.

Um policial de 20 anos, que não teria vínculo com extremistas, feriu a tiros dois soldados dos EUA numa rodovia em novembro. Seus advogados estão alegando insanidade.

Na segunda-feira, as autoridades anunciaram a prisão de dois seguidores de Osama bin Laden que estariam planejando ataques contra comboios militares dos EUA.

Muitos kuwaitianos treinaram e lutaram com a organização de Bin Laden, Al-Qaeda, no Afeganistão. Mas o jornalista al-Nisf afirma que os seguidores de Bin Laden são minoria no país.

A maioria dos kuwaitianos ainda está agradecida aos americanos e a seus aliados por terem expulsado as tropas iraquianas do Kuwait, acrescentou al-Nisf.

Uma pessoa que relembra 1991 – quando os kuwaitianos pararam tropas dos EUA para tirar fotos com elas – decidiu fazer algo.

Salah al-Hashem e a Sociedade dos Amigos Kuwaitianos, um grupo privado, colocaram pôsteres do dia da libertação na traseira de 40 ônibus públicos. Os pôsteres trazem a inscrição “Nunca esqueceremos”, em árabe e inglês.

“Queremos dizer aos americanos que os recentes incidentes e manifestações não expressam os verdadeiros sentimentos que os kuwaitianos têm para com eles”, explicou al-Hashem.

Mas al-Shayeji, o professor de lei islâmica, desdenhou a campanha da Sociedade dos Amigos Kuwaitianos. “Eles deveriam se chamar Sociedade dos Aproveitadores Kuwaitianos”, retrucou.