EUA e Iraque podem estar violando Convenção de Genebra

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Publicado segunda-feira, 24 de março de 2003 as 09:43, por: cdb

Mostrar prisioneiros de guerra na televisão, como fizeram americanos e iraquianos, pode significar uma violação da Convenção de Genebra, segundo o comitê internacional da Cruz Vermelha.

Num videotape, exibido domingo pela TV iraquiana, quatro homens e uma mulher apareceram sendo interrogados. Eles disseram seus nomes, identificação militar e sua cidade de origem nos Estados Unidos.

Americanos e ingleses denunciaram a ação como violação da Convenção de Genebra. No entanto, alguns especialistas observam que as filmagens de soldados iraquianos que se entragaram também podem não estar de acordo com a Convenção.

Uma porta-voz da Cruz Vermelha, Nada Doumani, disse que prisioneiros de guerra não podem ser exibidos em público.

Proteção

“O artigo 13 da terceira Convenção de Genebra diz claramente que prisioneiros de guerra devem ser protegidos o tempo todo contra o insulto e a curiosidade pública”, disse ela à agência de notícias Reuters.

Acredita-se que os cinco prisioneiros americanos tenham sido capturados perto da cidade de Nasiriyah, no sul do Iraque. Aparentemente, são os primeiros prisioneiros de guerra feitos pelos iraquianos.

Dois deles pareciam feridos. Um estava deitado no chão, sobre um tapete.

O ministro da Defesa do Iraque, Sultan Hashim Ahmed, disse que seu país “não iria ferir os prisioneiros de guerra”.

“Vamos tratá-los em conformidade com a Convenção de Genebra para prisioneiros de guerra”, acrescentou.

Ordens

Os prisioneiros se identificaram como sendo da 507ª companhia de manutenção e estavam vestindo uniformes militares. Eles pareciam confusos e amedrontados.

Perguntado por que tinha ido ao Iraque, um deles respondeu: “Disseram-me para vir”.

Ele disse que tinha ido para consertar “coisas quebradas”.

Perguntado se tinha ido para atirar em iraquianos, ele disse: “Não, eu vim para atirar apenas se atirarem em mim. Se eles não me incomodarem, eu não os incomodo”.

Um outro disse que “não queria matar ninguém”.

Perguntado por que estava no Iraque, outro respondeu: “Eu sigo ordens”.

O presidente americano, George W. Bush, disse que esperava que eles fossem tratados “humanamente, como nós vamos tratar qualquer prisioneiro iraquiano”.

Sem consenso

As regras para tratamento de prisioneiros de guerra são rígidas, embora não haja consenso sobre quando elas devam ser aplicadas ou quando elas são violadas

A convenção que trata deste assunto data de 1864 e recebeu a última emenda em 1949.

Ela foi assinada por 189 países e estabelece direitos humanos básicos para os prisioneiros.

O comitê internacional da Cruz Vermelha é responsável por visitar prisioneiros e verificar se o país que os capturou está obedecendo às regras.

Segundo Amanda Williams, da Cruz Vermelha em Londres, a prioridade para a sua organização é ter acesso a prisioneiros dos dois lados.

Surpresa

Na Guerra do Golfo, em 1991, soldados iraquianos que se renderam se mostravam freqüentemente surpresos com o tratamento humano que recebiam, segundo Chris Lincoln-Jones, comandante britânico na época.

“No momento da rendição, eles estavam apavorados, porque tinham ouvido de seus superiores que seriam baleados pelo inimigo”, disse.

Desta vez, há questionamento sobre a conduta de tropas americanas e inglesas, depois de relatos de que soldados iraquianos estão sendo forçados a ficar completamente nus para ser submetidos a uma busca por explosivos escondidos.

O temor é de que soldados que estão se rendendo sejam na verdade suicidas.

O comando das forças britânicas se recusou a comentar essas buscas.

A convenção de Genebra

– Rações básicas de comida devem manter os prisioneiros em boas condições

– Roupas adequadas devem ser fornecidas, de preferência o uniforme original dos prisioneiros

– Prisioneiros devem ser protegidos contra violência ou intimidação, insulto e curiosidade pública

– Prisioneiros devem ser libertados ou repatriados sem demor