EUA e Europa divergem sobre o papel da ONU

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Publicado quarta-feira, 19 de fevereiro de 2003 as 23:41, por: cdb

O comunicado apresentado pelos líderes dos 15 membros da União Européia na segunda-feira correspondeu a uma formulação de compromisso, que demonstrou intransigência com Saddam Hussein e evidenciou a preferência européia por um resultado pacífico. Mas a posição não foi ambígua em um ponto, que captou perfeitamente a divisão entre os EUA e a vasta maioria da opinião pública européia.

“Nós estamos comprometidos com a ONU permanecendo no centro da ordem internacional”, afirmou a declaração. “Nós reconhecemos que a responsabilidade primária pelo desarmamento iraquiano está com o Conselho de Segurança”.

De fato, toda a conferência de emergência dos líderes europeus, realizada para que uma posição comum sobre o Iraque fosse estabelecida, foi marcada por um compromisso com o que pode ser visto com uma forma de governo mundial, a supervisão dos países por uma burocracia civil internacional, cujo QG está na ONU. Esta é uma noção que há muito é vista com suspeita e em certas ocasiões até hostilizada pelos EUA.

De certa forma, todas as análises sobre as diferenças culturais entre europeus e americanos – sobre os europeus sendo menos inclinados ao uso da força e mais inclinados a sacrificar sua soberania – na prática têm um sentido: os governos europeus acreditam na ONU como o “centro de uma ordem mundial” e o governo dos EUA, em especial o atual governo americano, tende a ser hostil a essa idéia.

É verdade que, apesar da reputação unilateralista do governo Bush, os EUA até o momento aceitaram as regras multilateralistas européias sobre o jogo com o Iraque. De fato, após contemplarem uma ação unilateral contra Saddam, o governo agora está envolvido com as resoluções e negociações do Conselho de Segurança que os unilateralistas americanos – e, logicamente nem todos os americanos – acreditam ser um anátema.

Mas a decisão de recorrer à ONU foi tomada com relutância, e permanece sendo contestada no governo. “Os europeus já operam um tipo de governo mundial na Europa, e eles gostariam de replicar esta experiência em uma escala global”, afirmou Robert Kagan, cujo livro “Of Paradise and Power”, é um estudo sobre as diferenças culturais entre a Europa e os EUA. “Mas os EUA, que nunca operaram em tal sistema, tanto democratas quanto republicamos, duvidam que isso possa ser feito”.

Aqueles que duvidam do governo mundial afirmam que o histórico da ONU simplesmente não é muito positivo. Em seus esforços na Bósnia, por exemplo – antes de os EUA liderarem o esforço para acabar com o genocídio que lá se desenvolvia – a ONU fracassou precisamente, na visão dos críticos, porque concedeu muita ênfase às negociações e não concentrou força militar suficiente.