Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada

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Publicado sexta-feira, 3 de junho de 2011 as 14:11, por: cdb

Por Emília Vaz 03/06/2011 às 16:40

Que percentual do tempo do trabalhador é dedicado ao trabalho? Será só um décimo? Será apenas um terço?

Eles falam muito mas no final das contas não dizem nada. No mês passado o “Bom Dia, Brasil” levou ao ar uma matéria de título “Autor de ‘Ócio Criativo’ defende amor e beleza na formação do aluno”. Nessa matéria, o pensador italiano Domenico de Masi disse:

“Se a escola forma só para o trabalho, que ocupa um décimo das nossas vidas, forma para a tristeza, porque o ser humano não vive só para o trabalho. Ele vive também para o estudo, para a aprendizagem, para as amizades, para o amor e para a beleza”.

 http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/05/autor-de-ocio-criativo-defende-amor-e-beleza-na-formacao-do-aluno.html

Noutra matéria intitulada “Paulistanos sofrem para voltar para casa após fim da greve dos trens”, veiculada hoje, o mesmo telejornal matutino da Rede Globo noticiou que uma trabalhadora de nome Maria das Graças acorda às 4h30 para poder não chegar atrasada ao trabalho, que começa às 8h30. Se essa trabalhadora trabalhar 8 horas por dia, sem intervalo para almoço, ela sai do trabalho às 16h30 e deve gastar 4 horas para chegar de volta ao seu lar. Se for assim, essa Senhora gasta 16 horas diárias em benefício do(s) seu(s) patrão(ões).

Então como é que esse tal de Domenico de Masi afirma que o trabalho só ocupa um décimo de “nossas” vidas? E como é que os jornalistas engolem esse camelo a seco como se estivesse lubrificado? “Nossas” vidas de quem, Caras Pálidas?

Nietzsche disse que quem não dispõe de dois terços do seu dia é um escravo. O patrão nosso de cada dia é um escravizador, pois dispõe de dois terços do dia dos trabalhadores e, pior, pagando-lhe um salário de miséria.

Os capitalistas deveriam computar como tempo de trabalho as horas ‘in itineris’, tal qual fazem os empregadores cujos locais de trabalho não são servidos por transportes públicos, até porque essas horas ‘in itineris’ são a serviço do burguês explorador e é ele quem dá, atualmente, a quase totalidade das despesas de condução dos empregados, aliás, ele não dá, até porque o patrão não dá nada ao trabalhador sem que antes tenha tirado dele pelo menos o dobro. O patrão só devolve, com o nome de vale-transporte, o que tomou do empregado.

 http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/06/paulistanos-sofrem-para-voltar-para-casa-apos-fim-da-greve-dos-trens.html

Os empregadores não só deveriam pagar aos trabalhadores as horas gastas no percurso para o trabalho e do trabalho para a casa, como também pagarem as despesas de transportes dos trabalhadores quando há greves dos transportes públicos, pois nessas ocasiões as despesas dos operários se elevam ainda mais com pagamento de taxis e moto-boys.

Disse Marx que “o homem que não disponha de nenhum tempo livre, cuja vida – afora as interrupções puramente físicas, do sono, das refeições etc. – esteja toda ela absorvida pelo seu trabalho para o capitalista, é menos que uma besta de carga. É uma simples máquina, fisicamente destroçada e intelectualmente brutalizada, para produzir riqueza para outrem.” Trabalhadores como a Senhora Maria das Graças volta á sua casa apenas para recuperar suas energias para continuar a trabalhar. Pessoas como ela, não trabalham para viver, ao contrário, vivem para trabalhar. Que tempo tem pessoas como essa Senhora para o estudo, para a aprendizagem, para as amizades, para o amor e para a beleza?

Pior é que elas ainda dão graças a Deus por não estarem desempregadas.